Caro Pastor Silas,

Fique em dúvida se deveria ou não escrever-lhe, já que embora eu tenha apreço por polêmicas, não queria entrar em um embate com o senhor. Mas não tive escolha, pois em sua entrevista com a Marília Gabriela o Sr. tocou em temas que me são muito caros, como ciência, cristianismo, comportamentos e moral, expressando, no entanto, visões muito diferentes das minhas, mesmo eu também sendo um cristão confesso. Senti então ser meu dever escrever, se não para estabelecer um diálogo, no mínimo para apontar tais diferenças, sob pena de eu ser acusado de omissão.

Ao contrário do senhor, acredito que os homossexuais devam ser tratados com absoluta igualdade, sendo-lhes facultados direitos civis plenos, inclusive para adoção de filhos, casamento etc. Negar-lhes tais possibilidades é tratá-los como seres de uma classe diferente, inferior, o que, não tenho muitas dúvidas, vai contra a palavra de Cristo.

Antes que trechos bíblicos sejam vociferados contra mim, segure a bile e me acompanhe no resgate de alguns episódios da história da igreja cristã e sua relação com a moral da sociedade.

Tomemos o exemplo da escravidão. Até há poucos séculos ela não era considerada um problema ético na sociedade. Nessa época o discurso majoritário da igreja cristã era também favorável à prática, invocando falas do mesmo apóstolo Paulo que o senhor cita para condenar a homossexualidade. Mas com o amadurecimento das sociedades começou a crescer um sentimento de que a escravidão era um erro, a despeito da anuência da igreja. Até que no seio dessa mesma igreja houve um progressivo despertar das consciências, revendo as palavras da Bíblia à luz das novas configurações sociais; a partir daí os cristãos passaram a ter um papel fundamental no movimento abolicionista, sendo responsáveis pela fundação da primeira sociedade anti-escravagista do mundo, em 1775.

Para ficar ainda na questão racial, muito mais recentemente os negros eram ainda discriminados, tendo menos direitos dos que os brancos – e de forma absolutamente legalizada em países como os Estados Unidos, por exemplo. Novamente a pregação da igreja cristã justificava tais atitudes, não só dizendo que o certo era seguir as leis, como invocando argumentos teológicos para justificar a diferença entre negros e brancos. De novo, dentro da igreja as consciências foram tocadas e a pregação cristã de amar o próximo como a si mesmo levou à conclusão de que não poderia ser certo tratar pessoas como inferiores por conta da cor de suas peles, nas palavras de um pastor que era tão inflamado como o senhor, o reverendo Martin Luther King, Jr.

Agora chegando a um tempo que nós mesmos vivenciamos, há coisa de duas décadas a palavra “pastora” nem sequer existia no vocabulário evangélico, lembra-se? O mesmo Paulo era citado quando dizia ser imoral as mulheres falarem na igreja, e a elas era restrito o direito de intervir na liturgia ou assumir cargos na hierarquia eclesiástica. O que aconteceu nos últimos anos, que hoje há pastoras e até mesmo apóstolas? As palavras de Paulo não foram apagadas da Bíblia, simplesmente foram reinterpretadas à luz das mudanças da sociedade.

Esses são alguns exemplos de discriminações que eram sustentadas por argumentos bíblicos que caíram com o tempo. Gosto de ressaltar que os próprios cristãos perceberam que seguir a literalidade de alguns trechos da Bíblia feria a essência do cristianismo. Nessa hora é necessária muita coragem para mudar o discurso.

Não quero criar um embate, de coração. A única coisa que espero, como o senhor é um homem corajoso, é que no dia que sua consciência for tocada e o senhor perceber como vai contra as palavras do Cristo tratar alguém como inferior por conta de seu gosto sexual, o senhor se inspire nos heróis da fé e tenha brios para ajudar a sociedade a acabar também com essa discriminação.

Com amor fraterno,

Daniel