Você está satisfeito com seu corpo? Se não estiver, consideraria fazer uma cirurgia plástica? Pois praticamente um milhão e meio de brasileiros (1,49 milhão para ser exato) optaram pelo bisturi ao longo de 2013; como isso o país superou os EUA como o primeiro colocado mundial nessas intervenções, como informou o correspondente do Estadão em Genebra, Jamil Chade (leia aqui).

Por que isso acontece? E que consequências esse fenômeno pode trazer?

As respostas são várias. Há um fator cultural bem nosso, mas que não age sozinho, e sim em conjunção com o atual cenário econômico do Brasil. Estuando as formas de se relacionar conjugalmente no país, a antropóloga Miriam Goldberg se surpreendeu com a centralidade do “corpo” na nossa cultura, atestando algo que empiricamente o que Gilberto Freyre já propunha e que todos imaginamos: o brasileiro valoriza muito o corpo e sua aparência jovem e saudável. Assim, com o aumento do poder aquisitivo nos últimos anos, nós tivemos maior acesso não só a carros e geladeiras, mas também à cirurgia estética. Alguns expressam a preocupação, contudo, se não haveria fatores psicológicos, emocionais, subjacentes a esse aumento da busca por um corpo bonito. Em caso positivo tais fatores deveriam ser identificados e tratados, sob o risco de termos consequências negativas futuras por ignorar o verdadeiro problema.

Mas é difícil dizer. Os estudos com pacientes pré-cirurgia indicam que, de forma geral, não existe um perfil de problemas psíquicos motivando a operação. Evidentemente são pessoas que se apresentam menos felizes com o próprio corpo do que a população geral, mas apesar dos resultados variarem, o que parece é que, por trás da decisão de ser operado está mais presente uma insatisfação benigna do que um transtorno mental. Tal descontentamento pode variar dentro de um espectro com pelo menos três estágios:
1) Insatisfação – quando há aspectos que incomodam, mas de forma tolerável;
2) Distúrbio da imagem corporal – não exatamente um diagnóstico, mas uma condição em que o sujeito fica mais incomodado e acaba sendo emocionalmente afetado, desenvolvendo comportamentos de camuflagem de um real ou suposto defeito;
3) Transtorno dismórfico corporal – uma doença psiquiátrica propriamente dita, em que a percepção da pessoa é distorcida a tal ponto que um defeito imaginário passa a dominar totalmente sua vida, e que não melhora com qualquer intervenção estética, cirúrgica ou não.

Embora os dois últimos sejam problemas mais sérios, dignos de intervenção no mínimo psicoterapêutica, acredito – e aqui é apenas um chute, ainda que embasado nos resultados das pesquisas – que seja o primeiro grupo o responsável pela explosão de cirurgias. Até porque o fenômeno tende a se autoalimentar, já que num ambiente em que culturalmente se valoriza o corpo e em que a busca pela beleza se torna acessível, mais gente irá correr atrás desses padrões, aumentando a insatisfação dos que se afastam deles. Não existe tampouco um consenso sobre o que acontece depois que as pessoas são operadas – os resultados dos estudos variam também nesse quesito, e novamente não parece haver tendência para grandes catástrofes no pós-operatório, seja do ponto de vista clínico ou psíquico.

Existe exagero na busca por um corpo perfeito? Eu tenho a mera sensação que sim – boa parte das plásticas parecem a mim desnecessárias. Mas, no fim das contas, onde (e como) se traça a linha que separa futilidade de necessidade sem incorrer num julgamento arbitrário? Mais do que isso, quais as evidências que isso seja prejudicial para a população?

E, sejamos sinceros, o problema do brasileiro não é olhar demais para fora. Antes fosse. Nossa grande dificuldade se encontra no polo oposto: é olhar de menos para dentro.

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Sarwer DB, Wadden TA, Pertschuk MJ, & Whitaker LA (1998). The psychology of cosmetic surgery: a review and reconceptualization. Clinical psychology review, 18 (1), 1-22 PMID: 9455621