Embora o estresse provavelmente esteja levando a culpa por crimes que não comete (como aconteceu com o colesterol no passado e provavelmente o glúten hoje em dia) não se pode dizer que ele seja totalmente inocente. De fato o estresse em si não é ruim – ele até ajuda em vários aspectos da nossa vida mental – mas quando mantido elevado cronicamente suas consequências podem ser sérias, desde a perda de qualidade de vida até o desenvolvimento de depressão e transtornos ansiosos, passando por problemas físicos.

O trabalho é sempre o suspeito habitual – um a cada quatro americanos considera-o como sua principal fonte de estresse na vida. Mas mesmo para quem não associa o problema ao emprego, o trabalho é um local privilegiado para se ensinar as pessoas a lidar melhor com o estresse, já que passamos tanto tempo nele.

Pensando nisso, a Confederação Nacional da Indústria e o SESI encomendaram um programa de redução de estresse baseado  em mindfullnes, também chamado no Brasil de atenção plena, que pudesse ser aplicado nos locais de trabalho. Para tanto, os neurocientistas brasileiros Shirley Lacerda, psicólogo, e Elisa Kosaza, bióloga, se uniram ao monge e físico Stephen Little (disclaimer: Little é diretor na The School of Life Brasil, da qual faço parte) para testar a eficácia de um programa de redução de estresse adaptado ao ambiente de trabalho. Eles convidaram funcionários de duas companhias para participar de um treinamento de dois meses. Uma vez por semana havia encontros de no máximo uma hora (exceto o primeiro e último, que tinham uma hora e meia), e recebiam materiais para continuar os exercícios durante os dias seguintes. Cientes da dificuldade de implementar tais comportamentos na rotina doméstica, as práticas foram também adaptadas para o ambiente de trabalho, durando até meia hora.

Os funcionários foram divididos em dois grupos – um recebeu o treinamento logo do início, enquanto o segundo grupo ficou na espera; após dois meses o segundo grupo foi treinado, enquanto o primeiro só recebeu a instrução de manter o que aprendera. As diferenças foram significativas: a prática das técnicas baseadas em mindfullness foi eficiente na redução de sintomas depressivos e ansiosos leves, além de reduzir significativamente os níveis gerais de estresse. E tais ganhos se mantiveram após dois meses sem intervenção, quando o primeiro grupo foi reavaliado.

Assim como o estresse não é o vilão que se pinta na mídia, também o mindfullness não é o herói todo poderoso que muitas vezes somos levados a crer. Uma recente revisão sistemática da literatura científica não encontrou evidência inquestionável de eficácia para coisas como controle do peso, abuso de substâncias ou mesmo sono. Por outro lado comprovou sua eficácia para alívio de sintomas de transtornos depressivos e ansiosos, além de controle de dor e redução de estresse.

Então não adianta querer meditar para qualquer problema na vida – há coisas que não se resolvem apenas alcançando um estado mental mais tranquilo. Mas quando o assunto é o estresse vale a pena tentar meditar no trabalho – mesmo que ele não tenha culpa.

 

  • 1) Lacerda SS, Little SW andKozasa EH (2018) A StressReduction Program Adaptedfor the Work Environment:A Randomized Controlled Trial Witha Follow-Up. Front. Psychol. 9:668
  • 2) Van Dam NT, van Vugt MK, Vago DR, Schmalzl L, Saron CD, Olendzki A, Meissner T, Lazar SW, Kerr CE, Gorchov J, Fox KCR, Field BA, Britton WB, Brefczynski-Lewis JA, Meyer DE. Mind the Hype: A Critical Evaluation and Prescriptive Agenda for Research on Mindfulness and Meditation. Perspect Psychol Sci. 2018 Jan;13(1):36-61.

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Leitura mental

As opções de leitura sobre meditação atualmente são muitas. Há diversos livros que ensinam o leitor a começar e se aprofundar na prática. Mas alguns lançamentos olham para essas técnicas por outro prisma, buscando articular conhecimento científico e tradicional. O livro Olhando para dentro : insight, consciência e transcendência (editora Gryphus, 2017), é o resultado do doutorado de Valéria Portugal, pesquisadora interessada no processo de insight. Professora de meditação transcendental, ela mostra como essa técnica é capaz de colocar o cérebro num estado propício para o insight, baseando-se no seu conhecimento tanto do cérebro como da meditação. Já no A ciência da meditação : como transformar o cérebro, a mente e o corpo (Objetiva, 2017), o psicólogo Daniel Goleman, famoso por difundir o conceito da inteligência emocional, se une ao colega Richard J. Davidson para pesquisar as evidência científicas por trás da meditação. Indo da genética à neuroimagem, os resultados que eles compilam não dão margem à dúvida sobre os benefícios de meditar. Por fim, Cérebro e meditação : diálogos entre o budismo e a neurociência (Alaúde Editorial, 2018) traz uma extensa – além de agradável e informativa – conversa entre o monge budista e biólogo molecular Matthieu Ricard e o neurocientista Wolf Singer sobre as diferenças e semelhanças de entre essas áreas na compreensão da mente humana, bem como nas intervenções mentais que tais saberes propõe. Pode até faltar tempo para meditar, mas o que não faltam são evidências.