fonte: pixabay

fonte: pixabay

Esse ano ganhei uma vitrola de aniversário. Há anos eu paquerava a ideia de entrar no ressurreto mundo dos discos de vinil, mas não tinha a coragem para dar esse salto na máquina do tempo, até que minha irmã e meu cunhado resolveram meu dilema. E a experiência tem sido muito divertida.

Apesar de entusiasmado com o novo hobby, nunca me deixei levar pelos argumentos dos aficionados, de que os discos têm um som incomparável, que a digitalização mata as nuances da música. (Certa vez vi o Ed Motta dizer que comparar o LP ao CD era como comparar a lasanha da mama ao produto pré-congelado dos supermercados.) Existem artigos extremamente consistentes mostrando que, em termos técnicos, o som do vinil não é melhor que o do CD. Você pode gostar mais de um do que de outro, mas não há como provar tecnicamente a superioridade da tecnologia mais antiga.

Alguns imaginam então que seja uma questão de nostalgia – os discos remeteriam a um tempo anterior (principalmente à adolescência), no qual a música era vivenciada de outra forma, com maior intensidade, mais significado, mais emoção. Claro que isso tem muito mais a ver com a relação entre adolescência e música do que com a relação entre a música e sua mídia de suporte. Mas ainda assim, não acho que a nostalgia seja a resposta. Senão deveríamos testemunhar também a ascensão das fitas de VHS paralela ao declínio dos DVDs. Se os CDs foram mortos pelo MP3 e os DVDs pelo streaming (Netflix e correlatos), porque voltamos aos discos mas não às fitas de vídeo?

Pelo menos da minha experiência imagino que tenha muito mais a ver com o trabalho que os discos dão do que qualquer outra coisa. Nós chamamos de ritual, de elementos do hobby, mas no fundo é trabalho. Garimpar o LP num sebo, checar seu estado físico, avaliar a capa e barganhar o preço é apenas o início. Em casa é bom lavar o bolachão com detergente, deixar secar por horas, encontrar um local para guardar o trambolho. E para ouvir é preciso passar de capa em capa, escolher, pegar, abrir e ligar a vitrola, pôr o disco, posicionar o braço e descer a agulha. Dali a poucos minutos, quanto termina o “lado A”, há que se levantar para recolher o braço, virar o disco, reposicionar a agulha. E em uma hora reiniciar o processo inteiro para trocar o disco. Trabalheira. Por isso que é bom.

O economista comportamental Dan Ariely, já citado aqui, descreveu o interessante “efeito IKEA”. IKEA é uma marca de móveis comprados como kits que o consumidor tem um trabalho enorme para montar. Só que no fim das contas gosta mais deles do que os móveis que compra prontos. Ariely conduziu uma série de experimentos mostrando que isso acontece porque damos muito mais valor para as coisas nas quais colocamos esforços. Num dos estudos voluntários tinham que fazer origamis, os quais podiam posteriormente comprar. Quanto mais difícil era a tarefa, mais feios eles ficavam, mas mais valorizados seus autores os consideravam. Em sua palestra no TED ele pergunta: “Por quanto dinheiro você venderia seus filhos?” Imaginando que houvesse um preço possível, ele seria altíssimo, não? Mas e se você passasse uma tarde brincando com algumas crianças e no final os pais dissessem: “Gostou delas? Estão à venda. Quer pagar quanto?” Provavelmente o valor seria menor do que você dá aos próprios filhos. Em parte isso se deve a todo o trabalho investido neles, crê Ariely (que tem um casal de filhos pequenos).

O MP3 e os serviços de streaming transformaram radicalmente a forma de consumir música, praticamente eliminando qualquer trabalho. Baixam-se obras completas, assina-se um serviço ou instala-se um aplicativo e pronto – música contínua e automática. Pouco trabalho de escolha, nenhum esforço para a reprodução. Pode-se ouvir música boa assim? Claro. Com qualidade? Sim, e com muito mais praticidade. Pode ser prazeroso? Sem dúvida.

Minha teoria do efeito IKEA aplicado à música não diz que música digital é ruim; só explica porque a música analógica é tão legal e porque gostei tanto do meu presente.

ResearchBlogging.org
Norton, M., Mochon, D., & Ariely, D. (2012). The IKEA effect: When labor leads to love Journal of Consumer Psychology, 22 (3), 453-460 DOI: 10.1016/j.jcps.2011.08.002