De quatro em quatro anos, quando é lançado o álbum dos times da copa do mundo, fica evidente como estatística é algo contra-intuitivo, desafiando a nossa limitada percepção imediata. Sim, vamos falar das famigeradas figurinhas raras.

As queixas girando em torno das figurinhas difíceis, que demorariam a a ser encontradas por serem lançadas em menor quantidade no mercado, são tão certas como as reclamações contra a arbitragem, o empenho dos jogadores ou as decisões do técnico. E toda copa são novamente desmentidas – mesmo diante do ceticismo dos colecionadores que penam para conseguir determinados cromos. A ponto de a Panini, empresa responsável, convocar a imprensa numa tentativa (frustrada) de tranquilizar os colecionadores frustrados.

Na copa da África do Sul, em 2010, dois matemáticos suíços, da Universidade de Genève, resolveram testar as alegações da Panini e compraram mil e duzentos pacotes, totalizando seis mil figurinhas. Feitas as análises, constataram que, de fato, a distribuição era homogênea – nenhuma mais rara do que outra. Os cálculos também comprovam o óbvio: quanto mais preenchido o álbum está, mais improvável é encontrar as que estão faltando, dando a impressão que são difíceis. Para dar uma ideia, na compra das últimas duzentas figurinhas necessárias para conseguir fechar as contas, só três delas não seriam repetidas. Eles calcularam também por que os eventos de troca são tão populares. Para completar o álbum sem eles seria preciso comprar mais de quatro mil e quinhentas. Já num cenário de troca eficiente – entre cinco amigos, por exemplo – esse número é dez vezes menor; e claro que quanto mais gente envolvida, melhor.

Mas muitos estão convencidos de que dessa vez é sério – as figurinhas douradas são raras. Bem, a reposta é sim e não.

Por serem as primeiras de cada escuderia, além de brilhantes e douradas, desde o lançamento do álbum elas foram cobiçadas. Contudo em princípio eram tão raras como quaisquer outras – afinal, são apenas 50 num universo de 682, ou seja, não têm nem 10% de chance de aparecer numa compra qualquer. Por serem as mais desejadas, contudo, encontrar só 3 ou 4 delas  numa compra de 50 figurinhas dá a sensação de que são raras – quando na verdade é exatamente o que se esperaria de uma distribuição justa e aleatória.

Então elas não são difíceis, certo? Mais ou menos.

Como poucas pessoas se dispõe a gastar mais de R$ 1.000,00 para completar sua coleção, quase todo mundo conta com as trocas. Diante da percepção de que as douradas são raras, contudo, muitos começam a segurá-las, a supervalorizá-las, a pedir várias comuns em troca das brilhantes, derrubando a eficiência das trocas e levando a uma escassez real na ponta final do mercado. No fim das contas é a percepção de que elas são difíceis de encontrar que as tornam raras.

Eu não tenho a menor ilusão de que essas explicações convençam quem está desesperado por algumas figurinhas específicas. Mas quando sua tarefa estiver feita e a ansiedade baixar refaça as contas de cabeça fria. Você irá se surpreender como somos passíveis de erros diante de situações tão sérias e tensas como essa, de completar um álbum de figurinhas.

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Leitura mental

Para entender como um álbum de figurinhas se torna essa febre mundial é bom saber como algo “viraliza”. Os fenômenos de massa estão longe de ser novidade, como o escritor Derek Thompson mostra no livro Hit Makers : Como nascem as tendências (HaperCollins, 2018). Partindo da história da canção de ninar que ouvia em sua infância, passando pela cultura pop e chegando às redes sociais, Thompson elabora uma história das ideias globais, mostrando, ao contrário do que imaginamos, a propagação tem muito pouco de viral. Não se chega ao sucesso passando uma ideia de um para o outro milhões de vezes, mas sim de um para milhões de pessoas algumas vezes. Agora para ter certeza que, numa distribuição realmente aleatória de figurinhas é mais provável elas saírem repetidas do que o contrário, a sugestão é descobrir melhor como funciona o acaso. No livro As leis do acaso : Como a probabilidade pode nos ajudar a compreender a incerteza  (Zahar, 2017), o professor de probabilidade e estatística Robert Matthews consegue a proeza de tornar a matemática não só compreensível, mas a transforma em objeto de uma proza elegante e envolvente. Premiado como melhor escrito de ciência, Matthews nos mostra como a matemática está presente no dia-a-dia, nos brindando com ilustrações tão reais quanto a importância da estatística bayesiana no resgate náufragos ou como um resultado ruim num exame médico pode não ser má notícia.