Fonte Creative Commons

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Certa vez estávamos recebendo visitas em nossa casa, nos desculpando por algumas das avarias deixadas nos móveis pelas crianças, quando uma amiga disse algo que foi definitivo. “Mas gente, vocês não moram num apartamento decorado, né? É a casa de vocês. As marcas mostram que alguém vive aqui”. Sabe aquela mancha de molho derramado no sofá que tanto me fez raiva? Ganhou outro sentido.

A partir daí eu desencanei. Compreendi que os riscos, rabiscos, nódoas e rasgos que colecionamos distribuídos por vários cantos são como cicatrizes. Algumas são maiores, outras menores. Umas voluntários, outras acidentes. Parte reversível, parte indelével. Mas todas contam uma história – são marcos arqueológicos. Se por um lado criar cicatrizes pode ser doloroso, por outro, elas ajudam a construir uma narrativa que dê sentido à vida.

Parece que o ano de 2016 foi particularmente generoso em coisas para nos gerar cicatrizes. Na política, no futebol, nas redes sociais, nas famílias, não houve esfera poupada. Mortes, brigas, acidentes, discussões, fatalidades, más escolhas, teve de tudo. De uma forma ou de outra, com maior ou menor intensidade, todos fomos marcados por esse ano.

Como não é possível voltar no tempo e fazer com que as coisas seja diferentes, assim como não conseguimos “desderramar” o molho do sofá, nos restam duas opções. Podemos nos enraivecer por tudo o que aconteceu e carregar as mágoas 2017 a dentro, lamentando a cada vez que olharmos para uma dessas cicatrizes. Ninguém tem direito de nos condenar se fizermos isso – cada um sabe o tamanho de sua dor e lida com ela do jeito que dá.

Mas se conseguirmos aceitar as cicatrizes de 2016, compreendendo-as como parte de uma história que ainda está sendo escrita, que não acaba no dia trinta e um de dezembro, talvez consigamos não levar para o ano que vem o amargor de quem se sentiu injustiçado. As marcas que carregamos mostram, como aquelas em nossas casas, que estamos vivos. Inseridos realmente na vida, interagindo com pessoas, nos expondo aos riscos e às recompensas de amar de verdade.

A única forma de não se machucar é não se importar com nada. Mas isso não é vida – no máximo é como morar um apartamento decorado.

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Férias para você, não para seu cérebro

o caso

Não sei se é muito elegante, mas hoje delicadamente peço licença aos leitores para recomendar O caso da menina sonhadora, que publiquei em novembro pela Panda Books. Nele, a protagonista quer descobrir como a mente funciona. Ela acha que já passou da idade dos contos de fada e só quer saber de histórias de mistério, por isso em seus sonhos vai pedir ajuda a Sherlock Holmes. Para sua surpresa o famoso detetive a leva para passear justamente pelas histórias da carochinha. Ela aprende sobre o sono com A Bela Adormecida. Os sete anões lhe apresentam a personalidade. João e Maria mostram como funciona a memória (e sua falta). Pedrinho e o lobo, Patinho feio, o Príncipe sapo, os Três porquinhos – de cada conto clássico Sherlock extrai uma lição sobre a mente, para deleite da menina. Como a protagonista foi inspirada em minha filha, sou duplamente suspeito na recomendação – então dê um desconto.