Olha que boa notícia: você ganhou R$ 1.000,00. Não estava esperando esse dinheiro, não é? Então pense como pretende dividi-lo – temos quatro opções: 1) Comprar um presente bonito para uma alguém especial; 2) Investir numa previdência privada; 3) Fazer algo divertido e extravagante; 4) Colocar na conta corrente. Mas antes, pense em você mesmo com 70 anos. Imagine os cabelos brancos, a pele enrugada, as mãos menos firmes. Muda alguma coisa? Provavelmente muda pouco, porque nós não nos reconhecemos totalmente nos idosos que seremos – nossa imaginação é fraca para isso, e então produz certa descontinuidade entre quem somos e quem seremos, dando um pouco a impressão que o nosso eu futuro é outra pessoa. É como o Homer Simpson quando foi alertado pela Marge que teria um grande problema mais tarde se não fizesse nada naquela hora; “Esse é um problema para o Homer do futuro.” raciocinou ele “Caramba, eu não queria estar na pele desse cara!”, completou enquanto comia um pote inteiro de maionese. Em menor grau, somos todos um pouco assim.

Mas se pudermos nos ver no futuro – literalmente – isso pode mudar.

O cenário acima foi proposto para dois grupos de voluntários que se submeteram a uma experiência de realidade virtual. Antes de responder o que fariam com o dinheiro eles colocavam um daqueles óculos que imergem a pessoa num mundo gerado por computador, e tinham como tarefa olhar-se num espelho pendurado numa parede da casa virtual. Metade deles via um avatar com a sua cara, enquanto outra metade via a imagem de si mesmos com 70 anos, desenhada previamente por um algoritmo especialmente criado para envelhecer faces. Com isso o grupo que se viu mais velho alocou em média mais do que o dobro de dinheiro na previdência. Os pesquisadores modificaram de várias formas a experiência, expondo as pessoas a si mesmas ou a outras pessoas envelhecidas (novamente só que via a si mesmo velho é que poupava mais), e até sem o uso da realidade virtual – apenas mostrar uma foto do sujeito no presente ou no futuro (envelhecido), já foi suficiente para aumentar as atitudes menos voltadas para a recompensa imediata. Em todos os experimentos ver-se velho aumentou a sensação de continuidade entre o eu de hoje e o eu dos anos à frente, o que explica a mudança de comportamento.

Lembra o famoso Conto de Natal, um dos livros mais conhecidos de Charles Dickens, autor que vem sendo festejado por conta dos 200 anos de seu nascimento. A história já teve versões que vão do teatro às histórias em quadrinhos, passando por cinema e TV, com diferentes formatos e muitas releituras, mas todas guardam o espírito original – um velho sovina, Scrooge, só pensa em dinheiro e espalha o sofrimento ao seu redor por conta disso. Até que numa noite de Natal ele começa a receber a visita de diversos fantasmas. Um deles o leva de volta no tempo, mostrando as agruras que ele sofreu outrora; o segundo mostra o que está acontecendo à sua volta no tempo presente, os dramas que ele simplesmente ignora; e o último revela o que irá acontecer, a miséria de sua vida futura. E é só depois de se ver num futuro desolador que Scrooge se rende, implorando à assombração a chance de voltar para o presente, prometendo mudar: “Não serei o homem que teria sido se não houvesse passado por essa experiência.” (Spoiler alert: ele muda de fato).

Adiar gratificações nem sempre é fácil. E nem sempre necessário, convenhamos. O ideal é procurar o equilíbrio entre a poupança e o desfrute, sabendo, no entanto, que agir no presente em favor do futuro é a única maneira de melhorar aquilo que, um dia, será nosso passado.

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Hershfield, H., Goldstein, D., Sharpe, W., Fox, J., Yeykelis, L., Carstensen, L., & Bailenson, J. (2011). Increasing Saving Behavior Through Age-Progressed Renderings of the Future Self Journal of Marketing Research, 48 (SPL) DOI: 10.1509/jmkr.48.SPL.S23