Se você tem a sensação que está difícil arranjar um namorado para sua amiga solteira (ou uma namorada para seu amigo solteiro, namorada para solteira, namorado para solteiro etc.), é porque está mesmo. Em tempos de redes sociais e aplicativos desenvolvidos para supostamente ajudar as pessoas a se relacionarem poderíamos esperar que esse quadro melhorasse. Mas um livro recente mostra que essas novidades tecnológicas apresentam alguns efeitos colaterais que podem, no fim das contas, dificultar mais ainda as coisas.

Intrigado com o que via ao seu redor, o comediante Aziz Ansari convidou professor de Sociologia da New York University, Eric Klinenberg, para empreenderem uma ampla investigação sobre os efeitos da tecnologia em nossos relacionamentos. Daí surgiu o livro Romance moderno: uma investigação sobre relacionamentos na era digital, lançado pelo selo Paralela, da Companhia das Letras. Foram feitas pesquisas on-line, grupos focais com jovens e idosos, viagens internacionais e entrevistas com especialistas de diversas áreas, resultando num livro bem humorado e ao mesmo tempo bastante informativo. Mas longe de serem profetas do apocalipse, pregando o fim dos tempos com a chegada desses meios virtuais de se estabelecer relações, os autores buscam antes compreender seus mecanismos, distinguindo o que é bom do que é ruim em meio às novidades. O melhor exemplo para mim é o da multiplicidade de opções, que eu apelidei de “Paradoxo Netflix”.

A cena é conhecida: você se senta diante da TV para assistir alguma coisa e relaxar. Abre o menu de opções e começa a passear pela lista de filmes e séries que salvou para assistir mais tarde. São interessantes, mas ainda assim você resolve dar uma olhada nas sugestões específicas para você. Como o algoritmo de indicações é esperto, todas parecem prontas para te entreter. Depois de ler dezenas de sinopses você olha o relógio e se dá conta passou os quarenta e cinco minutos que reservara para isso apenas passeando entre as opções. Agora tem que voltar e cuidar da vida e acabou não assistindo nada.

É mais ou menos isso que aplicativos e sites de relacionamento fazem com quem está procurando um par. Se antes as opções eram escassas e as pessoas se casavam com o vizinho que estivesse disponível – porque era ele ou então ficar solteira – hoje as fotos de potenciais parceiros rolam na tela dos celulares como as capas de filme no Netflix. E essa possibilidade quase infinita de escolhas traz a sensação de que qualquer decisão pode ser “errada”. Ansari chama isso de “mal do upgrade”, já que as pessoas ficam continuamente com a tentação de procurar alguém melhor. Em determinada altura do livro, no entanto, ele reflete sobre o que está acontecendo: aquelas fotos que se sucedem à sua frente não são opções, são pessoas, com suas histórias, suas personalidades, e com absolutas chances de se tornarem bons parceiros se ao menos não fossem descartadas com um movimento dos dedos.

Considero suas conclusões irrefutáveis: em primeiro lugar, não fique trocando mensagens infinitamente, porque a novidade passa e uma oportunidade pode se perder conforme as mensagens vão rareando. Depois de um contato inicial – uma triagem breve, digamos assim – passe logo à ação e convide a pessoa para sair. Nada substitui o tête-à-tête na hora de decidir se vale ou não a pena investir em alguém. E mais do que isso, ele sugere: “Com tantas opções disponíveis, em vez de tentar explorar todas, tenha certeza de estar investindo como deve nas pessoas, dando-lhes uma oportunidade real antes de procurar a opção seguinte.”

Nada impede que novas tecnologias sejam usadas para começar relacionamentos. Mas não espere que elas tragam a mulher perfeita ou o príncipe encantado. Afinal, quando o assunto é relacionamentos, quem busca a perfeição está condenado à frustração.