Entro no debate que andou rolando sobre a tensão entre mulheres fortes e encalhadas e homens fracos e descomprometidos, mas o faço pela porta dos fundos: como isso pode trazer impactos negativos na vida das pessoas.

Para lembrar, há alguns dias fez sucesso um texto dizendo que as mulheres atuais foram educadas para ser o que os homens não querem. Pouco tempo depois outro artigo rebatia, concluindo que quem estava solteira não era por isso, mas por pura chatice.

Primeiro um esclarecimento: opinião é diferente de conhecimento. Conhecimento é uma opinião verdadeira e justificada. Opinião é um palpite, que pode ou não estar certo e não depende de justificativa. Há espaço para os dois na arena pública, mas é fundamental saber distingui-los. Senão vejamos: ninguém acha que só a educação feminina é que afasta os homens, mas negar que haja excesso de solteiras ou que a mudança de papel social feminino seja relevante não é só inútil – porque a coisa é visível a olho nu – como falso, já que existem dados empíricos confirmado isso. Extensa pesquisa da FGV já apontava, em 2005, que a solidão tem uma clara tendência a se concentrar no sexo feminino. Só para ficar em dois ou três exemplos, as porcentagens de sozinhas é maior do que a de sozinhos em São Paulo (44,19% das mulheres x 34,17% dos homens), Rio de Janeiro (47,39 x 35,38) e Brasília (44,32 x 34,37), padrão que se repete pelo país afora. Ou seja, há sim mais mulher do que homem no mercado de forma geral. As razões são várias, mas para quem acha que ser estudada e bem sucedida não faz diferença nenhuma, é bom saber que a chance de uma mulher sozinha ter mais de 12 anos de estudo é 70% maior do que uma mulher acompanhada ter esse nível educacional. Além do que, a renda média das desacompanhadas supera em 62% a das demais. Como os homens amadurecem mais tarde e em 74% dos casos as mulheres se unem a parceiros mais velhos, só há mais sozinhos que sozinhas entre os 20 e 30 anos. A partir daí passa a haver uma desproporção cada vez maior entre homens e mulheres sem companheiros fixos. Para os autores da pesquisa não é possível negar que a maior participação da mulher no mercado de trabalho seja uma das variáveis desse movimento.

Essa história coincidiu com a publicação esse mês de uma pesquisa americana comprovando a influência real das postagens no facebook sobre o estado emocional dos usuários. Que as emoções são contagiosas todo mundo que já conversou com um amigo mau humorado sabe. Mas dessa vez os cientistas manipularam as timelines de mais de meio milhão de usuários do facebook (689,003 sujeitos) para que estes vissem prioritariamente as atualizações positivas ou negativas de seus contatos. Como resultado, quem via mais coisas ruins acabou produzindo eles mesmos mais postagens negativas e menos positivas, e quem recebia mais as boas notícias fez exatamente o inverso. Mesmo sem contato direto ou sinais não-verbais, concluem eles, as emoções são contagiosas.

Voltando à questão das mulheres, claro que existe muita gente sozinha e bem resolvida. Mas imagine aquelas pessoas que se ressentem de não terem companhia. Talvez elas se consolem sabendo que há algo diferente na sociedade que dificulta a vida delas. Fato. Então vem alguém dar uma opinião, como se conhecimento tivesse, de que a culpa é delas mesmas por serem chatas. E o que é pior, de repente seus amigos começam a compartilhar essa opinião nas redes sociais (claro, frases com impacto mas sem substância ganham força de meme). Se dizer que a culpa é só da sociedade pode levar a uma postura conformista das solteiras, reduzindo sua implicação na mudança da situação, a repercussão de acusá-las de chatas pode ser um golpe na autoestima maior do que se imagina.

Como digo e repito sempre, fenômenos sociais complexos (como a formação de casais estáveis) resistem a explicações únicas e simplistas. Não é possível dizer que toda a culpa da solteirice feminina é da independência das mulheres ou imaturidade dos homens. Mas dizer que se alguém está solteira é porque é chata, ainda por cima negando a realidade de alguns fatos bem comprovados, é de uma desonestidade intelectual que, a mim, beira a irresponsabilidade.

ResearchBlogging.org
Kramer AD, Guillory JE, & Hancock JT (2014). Experimental evidence of massive-scale emotional contagion through social networks. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, 111 (24), 8788-90 PMID: 24889601