Quando eu estava na faculdade vi uma entrevista com o premiado publicitário Washington Olivetto na qual ele contou que certa noite estava num bar com os amigos e começou a tocar “De quem é esse jegue”, do Genival Lacerda. A música chamou sua atenção e na mesma hora ele decidiu usá-la como tema para a campanha publicitária de uma marca que buscava se popularizar. “O cara não desliga”, pensei. Estava lá, com os amigos, relaxando, mas em segundo plano em sua mente estavam os clientes, as campanhas, só esperando um insight surgir de algum lugar. Hoje percebo que isso não era apenas obsessão pelo trabalho – quando estamos envolvidos com algo, mesmo nos momentos em que o assunto não está em primeiro plano em nossa mente fica rodando por ali.

Recentemente aconteceu comigo durante uma consulta. Uma familiar da paciente que estava atendendo queixou-se de não saber como a família poderia ajudar alguém com depressão. Eu estava focado no atendimento, nem estava pensando no blog, mas na mesma hora soube que era um tema que deveria tratar aqui. Até comentei com elas, agradecendo a inspiração.

O principal desafio é explicar para os familiares que os pacientes não são preguiçosos. Ao contrário das outras doenças, em que geralmente o que os pacientes mais desejam é ficar bem, na depressão as pessoas muitas vezes perdem a vontade de qualquer coisa. Até de melhorar. Se quem quebra a perna não vê a hora de tirar o gesso, quem fica deprimido não tem a mesma força para reagir. No caso deles não é a perna que está quebrada afinal, é o próprio querer.

Existem dois erros comuns que os familiares cometem. O primeiro é tentar minimizar os sintomas, insistindo que o paciente reaja, tenha boa vontade, “se ajude” de alguma forma. Isso pode ser extremamente irritante, até porque se ele conseguisse reagir não escolheria estar mal. O segundo é tomar o caminho oposto: já que ele não consegue reagir, deixá-lo no seu canto, à própria sorte, desistindo dele. Nem precisa dizer que isso não ajuda em nada.

O meio termo, entre o desprezo e a insistência, nem sempre é fácil de encontrar. Mas algo que as famílias podem fazer para encontrar esse equilíbrio é utilizar a empatia como bússola. Tente se colocar no lugar do outro – quanto você gostaria de ser deixado em paz, mas não sozinho? Quanto você gostaria de ser estimulado, mas não forçado? Estar disponível, mostrar interesse na pessoa, passando a mensagem de que “qualquer coisa, estamos aqui” (e de fato estar), já ajuda muito. Às vezes é preciso ser mais incisivo (“Eu já liguei para o médico e eu mesmo te levarei à consulta”), às vezes mais condescendente (“Tudo bem, se você não quer sair, nós podemos ficar em casa juntos”).

No final das contas, o melhor guia para saber como agir em cada situação é ter interesse genuíno pelo outro. O que é o mínimo que podemos esperar de nossas famílias.

 

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Leitura mental

Dentre as centenas de técnicas de psicoterapias existentes, poucas são tão estudadas como a terapia cognitiva-comportamental. Não significa necessariamente que seja melhor ou pior do que as outras, mas sua estruturação objetiva e mensurável facilita muito as pesquisas científicas utilizando essas técnica. E facilita também a transmissão de seus princípios, tanto para formar profissionais como para o público leigo. A segunda edição de A mente vencendo o humor, (Artmed, 2017), está aí para provar. Trata-se de um exemplar genuíno do que se chama biblioterapia: o livro traz um passo-a-passo para que os próprios leitores apliquem técnicas cognitivas e monitorem sua evolução, algo que já se mostrou eficiente no combate à depressão, ansiedade, etc. Leitura mais do que recomendada tanto para quem ser ajudado como para quem quer ajudar.