Até essa semana eu não sabia da existência de grupos organizados que ficam nos locais de prova do Enem esperando para rir da cara de quem chega atrasado. Não sei o que é mais triste: descobrir que esse povo existe ou não me espantar tanto com isso. Pois apesar de lamentável, não me parece que seja impensável.

Em primeiro lugar porque ninguém gosta de admitir, mas todo mundo sabe o que é se divertir com a desgraça alheia. Dizem que os gregos já tinham uma palavra para nomear esse sentimento – Aristóteles condenava como um vício tal júbilo diante da má fortuna imerecida. E os alemães até hoje recorrem à palavra schadenfreude quando querem se referir à satisfação com o infortúnio de alguém. Schadenfreude chegou inclusive a ser cotado como personagem da animação Divertida Mente.

O que chama atenção não é termos esse sentimento, portanto. A novidade é ter gente fazendo dele uma prática de entretenimento. Esqueça os vídeos engraçados das pessoas levando tombos. O negócio agora é reunir os amigos diante do choro ao vivo de nossos semelhantes.

Nessas horas até eu, que não tenho mesma fé dos pessimistas radicais, convictos de que o mundo esteja piorando, lembro de uma enorme pesquisa mostrando que a empatia vem diminuindo. Há quatro décadas foi criada uma escala chamada Índice de reatividade interpessoal, na qual as pessoas respondem o quanto concordam com questões como “Eu tento olhar o lado de todos em uma discórdia antes de tomar uma decisão” ou “Às vezes eu tento entender melhor os meus amigos imaginando como as coisas se parecem de seu ponto de vista”. Com isso determinam o grau de preocupação empática e a capacidade de adotar outra perspectiva. Ao longo dos anos os questionários foram aplicados em diversas pesquisas, em diferentes contextos. Até que em 2011 uma pesquisadora americana resolveu comparar dados de 30 anos, entre 1979 e 2009. Descobriu,  estudando as respostas de 13.737 voluntários, que a preocupação empática caiu quase 50% no período. Já a capacidade de adotar a perspectiva do outro caiu 34%.

Mas se não fosse a força das redes sociais para juntar pessoas que não têm mais o que fazer, apenas a somatória da redução global de empatia à nossa tendência à schadenfreude não seria suficiente. Só quando várias pessoas com pouca empatia e muito tempo livre se descobrem mutuamente é que emerge esse infeliz passatempo.

Ninguém sabe exatamente por que a empatia está caindo no mundo. Imagina-se que o isolamento, a substituição de relacionamentos reais por virtuais e a queda nos índices de leitura de romances sejam alguns dos vilões. Pode ser. Mas mesmo que não seja, é difícil discordar que se alguém tem relações pessoas significativas ou um bom livro para ler dificilmente gastaria seu domingo saindo de casa para zombar do azar de desconhecidos.

 

Konrath SH, O’Brien EH, Hsing C. Changes in dispositional empathy in American college students over time: a meta-analysis. Pers Soc Psychol Rev. 2011 May;15(2):180-98.

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Leitura mental

O psicólogo ganhador do prêmio Nobel de economia, Daniel Kahneman, disse numa entrevista que, se tivesse uma varinha mágica e pudesse eliminar uma coisa, ele acabaria com a autoconfiança excessiva (overconfidence). Para sobrevier nosso cérebro aprendeu a assumir algumas coisas como verdade, e foi só com o desenvolvimento da ciência que aprendemos a questioná-las. No livro Pode não ser o que parece, lançado esse mês pela Objetiva, os economistas Samy Dana e Sérgio Almeida mostram como colocar ideias à prova pode ser importante na vida cotidiana. Usando os instrumentos da economia, como teorias de tomada de decisão, avaliação de risco, estratégias de negociação, eles mostram como muitas vezes nossas intuições nos levam para caminhos enganosos. O leitor descobre que, seja nos relacionamentos, no trabalho e até no lazer, ter coragem duvidar das certezas pode ser muito mais benéfico do que assustador.