Terça-feira de Carnaval é um excelente dia para refletir sobre como a festa é uma droga. Lícita, legalizada. Mas de várias maneiras ela funciona realmente como um psicotrópico.

Em minha coluna para desse domingo (Um conto de Carnaval) tratei um pouco do tema da recompensa imediata oferecida pela folia. Resumindo, não adianta lamentar o fato de que para melhorar o Brasil nós não empreendemos a mesma energia que gastamos no Carnaval. Mudanças assim demoram e não apelam imediatamente aos sentidos como as festas.

O Carnaval pode ser comparado aos psicotrópicos (e quem sabe também com o açúcar e a farinha refinados) na medida em que, como esse tipo de substâncias, age em nosso cérebro estimulando determinadas respostas de maneira única, particularmente intensa e imediata. As drogas atuam diretamente nos circuitos de recompensa cerebrais trazendo uma imediata sensação de prazer e o desejo de repetir a experiência, mesmo sem contribuir em nada para a saúde global do organismo. Os circuitos do prazer originalmente têm o propósito de nos recompensar – e nos levar a repetir – comportamentos que aumentem a nossa chance de sobreviver e nos reproduzir. As drogas são perigosas por darem prazer até mais intenso do que sexo e comida, mas sem dar o mesmo trabalho.

A música tem o poder de evocar respostas emocionais, elevar a autoestima, promover coesão social e, por si mesma, também estimular nossos centros de prazer. Quando ela é associada a comportamentos coletivos, como torcidas de futebol, culto religiosos e até mesmo exércitos, tais capacidades são potencializadas. Calcule o que acontece se – ao contrário dos propósitos espirituais ou marciais – o rito em questão tem o propósito explícito de festejar nossos desejos e permitir que sejam saciados. A música simples, alta e repetitiva, conferindo unidade às multidões que, reunidas, concordam com em suspender temporariamente a censura social; tudo isso faz do Carnaval uma droga com potência ímpar.

Mas como todo folião em quarta-feira de cinzas sabe, trata-se de um prazer tão potente como transitório. Mas pelo menos – por enquanto – é lícito.

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Leitura mental

Terminei de ler nesse feriado o livro Piquenique na estrada, dos irmão russos Arkádi e Boris Strugátski, lançado pela editora Aleph. Trata-se de um clássico da ficção científica, adaptado para o cinema no cultuado filme Stalker, de Andrei Tarkóvski, no final dos anos 1970. A humanidade foi visitada por alienígenas que, após ficarem um tempo em acampamentos espalhados pela Terra, vão embora sem estabelecer qualquer contato. O governo faz o que pode para manter tais zonas de visitação longe da curiosidade dos cidadãos, mas há tantos aparatos tecnológicos misteriosos por lá que algumas pessoas se especializam em invadi-las para roubar e vender os artefatos. O silêncio dos alienígenas só alimenta a perplexidade dos humanos diante desses aparelhos misteriosos – um personagem nos compara a macacos usando microscópios como martelos. A história dos Strugátski nos confronta com nossa angústia diante do inexplicado e desnuda nossa sede por explicações que façam sentido – sejam ou não reais.