Não pensem que desisti. A promessa de ano novo segue seu curso, e a batalha pela dieta saudável continua. Ao longo desses meses, prestando atenção no que acontece enquanto tentamos comer melhor, notei algumas armadilhas pelo caminho, nas quais todos tropeçamos. Estar cientes delas pode ser o primeiro passo para desviar.

Uma delas pulou diante dos meus olhos durante uma apresentação de stand up do comediante Demitri Martin. Ele comentava que é muito trabalhoso fazer uma salada: você tem que juntar os ingredientes, alface, tomate, cenoura, azeitona etc., e depois de temperar tudo, na hora de garfar você tinha o mesmo trabalho novamente – juntar alface, tomate, cenoura, azeitona etc.

De fato, o balanço entre facilidade e dificuldade de uma ação influencia em grande parte a probabilidade de ela ocorrer. Cada vez mais vem sendo levado em conta, na determinação de nossos comportamentos, o conceito de fricção: quanto menor a fricção, ou seja, quanto mais fácil for realizar algo, maior a chance de escolhermos esse caminho. O inverso é verdadeiro: quanto mais obstáculos tivermos que vencer para seguir uma direção, menor a probabilidade de irmos por ali. Falando de comportamentos concorrentes, então, o efeito é ainda maior: se temos que escolher entre a salada e o bolo, a fricção pode fazer toda diferença na atitude final. Parece óbvio, mas muitas vezes não consideramos essas coisas na hora de organizar nossa rotina. Pense na organização da sua cozinha – onde estão os biscoitos de chocolate? Em potes de vidro transparentes, chamando a atenção assim que se entra lá com fome? E as frutas? Escondidas no fundo da geladeira, num pote opaco? Veja que armadilha perfeita: o alimento que tem mais apelo ao nosso cérebro, por ter grande quantidade de açúcar e gordura, está mais visível e acessível do que o alimento que dará trabalho para o organismo digerir e absorver, e que não trará recompensa imediata. Depois não sabemos porque as besteiras sempre ganham das frutas.

O efeito do acesso é tão grande que um estudo publicado em 2011 mostrou como apenas alguns centímetros podem fazer diferença. Num restaurante de quilo da Universidade da Pensilvânia, pesquisadores variaram, ao longo de meses, a localização dos alimentos onde as pessoas se serviam. Como havia três fileiras de alimentos, para pegar os ingredientes na fileira do meio as pessoas tinham que esticar um pouco o braço por cima das fileiras das beiradas, coisa de 25 centímetros. Resultado: todos os alimentos eram menos consumidos quando ficavam ali do que quando estavam mais perto, nas fileiras das bordas. Numa mudança ainda mais sutil, a simples mudança de pegador alterou as quantidades consumidas – trocar as colheres, que pegam grandes porções, por pegadores tipo pinça, reduziu o tamanho das porções.

Na minha luta para ficar na linha tenho tentado usar essas técnicas: facilitar ao máximo as ações que levam a um prato saudável. Esconder os doces e guloseimas, colocando tudo em potes no fundo do armário. Deixar a salada já lavada, se possível com alguns ingredientes prontos para o uso – como cenouras raladas, brócolis picados etc., bem na frente da geladeira. Manter frutas visíveis e prontas para o consumo bem à mão. Enfim, reduzir ao máximo a fricção para os melhores alimentos. E de preferência fazer o inverso para as besteiras.

Essas atitudes por si só não nos obrigam a ir numa ou noutra direção, é claro. Às vezes vem uma fissura maior por doce, ou a preguiça de preparar a salada está muito grande. Mas mesmo não se tratando de garantia, certamente um aumento da frequência de boas escolhas já justifica essa reengenharia doméstica. Vale o esforço.

ResearchBlogging.org
Paul Rozin, Sydney Scott, Megan Dingley,, Joanna K. Urbanek, Hong Jiang,, & Mark Kaltenbach (2011). Nudge to nobesity I: Minor changes in accessibility decrease food
intake Judgment and Decision Making, 6, 323-332