Agressividade

A culpa é da TV?

Por Daniel Martins de Barros

19/06/2012, 20h03

   

Fui convidado para dar uma palestra sobre a influência dos desenhos animados no comportamento das crianças. Adorei o convite, já que agora tenho filho pequeno e em breve me depararei com a pergunta: será que o que as crianças assistem modifica sua forma de agir?

Nos anos 60 os trabalhos do psicólogo Albert Bandura fizerem um tremendo sucesso por comprovar, pela primeira vez, o que muitos pais já tinham percebido desde a popularização da TV anos antes: as crianças tendem a imitar o que assistem. Videos de adultos agredindo, xingando e hostilizando um boneco joão-bobo eram apresentados para crianças antes de elas brincarem numa sala onde, entre vários brinquedos, havia o bobo. Os resultados gerais mostraram que quem tinha visto o vídeo com atos agressivos demonstrava o dobro de atitudes violentas na sala de brinquedos.

Descobri que esse assunto foi bastante estudado na esteira do Bandura, nas décadas de 60 e 70, mas depois disso parece que perdeu o apelo, talvez porque já se considere essa uma pergunta respondida, talvez porque as preocupações tenham se voltado para os videogames a partir dos anos 80. De qualquer forma, em 2006 foi feita uma revisão da literatura específica sobre desenhos animados, que buscou reunir os principais achados das pesquisas, tanto em laboratório como no ambiente natural das crianças; o resumo da ópera é o seguinte:

1 – o humor atenua a percepção da violência, e provavelmente é por cauda disso que desenhos como Papa-léguas, Pica-Pau ou Pernalonga, mesmo com muitas cenas agressivas, não modifica o comportamento das crianças;
2 – a ausência de humor torna a agressão mais evidente, e estudos de laboratório e de campo (nos quais as crianças passavam alguns dias vendo desenhos de super-heróis, por exemplo) mostraram que essas animações sim, aumentava a expressão de comportamentos agressivos, tanto na escolha de brinquedos, como nas relações inter-pessoais;
3 – a influência dos desenhos é mais evidente em crianças que já tenham distúrbios do comportamento. Isso mostra que os desenhos animados são apenas uma dentre as muitas variáveis que interferem com as atitudes das crianças; aquelas que têm maior capacidade de se controlar lidam melhor com tais fatores;
4 – o principal meio de evitar a influência negativa da violência da TV é assisti-la junto com os filhos. A mediação ativa, na qual se conversa sobre o que está sendo visto, apontando não apenas os comportamentos negativos dos personagens, mas também as consequências para as vítimas, é eficiente em evitar a imitação de comportamentos agressivos.

Para mim, numa interpretação livre e algo controversa desses dados, pode-se concluir que a qualidade da TV para as crianças é diretamente proporcional à qualidade dos seus pais.

ResearchBlogging.org
Steven J. Kirsh (2006). Cartoon violence and aggression in youth Aggression and Violent Behavior, 11, 547-557 DOI: 10.1016/j.avb.2005.10.002
Bandura, Albert;, Ross, Dorothea;, & Ross, Sheila A. (1963). Imitation of film-mediated aggressive models. The Journal of Abnormal and Social Psychology, 66 (1) DOI: 10.1037/h0048687