A estreia do reality show “The Ultimate Fighter Brasil – Em busca de campeões”, no qual aspirantes a lutadores profissionais disputam vaga na maior competição mundial de vale-tudo, vem coroar o fenômeno que esse esporte se tornou. Na verdade vale-tudo é – paradoxalmente – o nome antigo de um esporte novo, o Mixed Martial Arts (artes marciais mistas), ou MMA para os iniciados. Eu não gosto particularmente, mas seu crescimento exponencial merece algumas reflexões.

Desde os primórdios da civilização nós humanos desenvolvemos meios ritualizados de expressar a agressividade inerente aos seres vivos. Encontrar maneiras de extravasar a violência sem nos matarmos deve ser até mesmo um pré-requisito para nos tornarmos civilizados. Não por acaso a luta é o esporte mais antigo da humanidade: colocar normas (criando um esporte) nos embates físicos deve ter sido uma das primeiras coisas que fizemos ao construir as sociedades. A partir de então, da luta na antiguidade clássica, passando pelos gladiadores romanos, pelas justas (combates de cavalaria) na idade média, até chegar ao boxe moderno, em cada período um jeito de bater e apanhar com regras conheceu a glória. A pós-modernidade nos trouxe o MMA.

Embora controverso e sujeito a múltiplas definições, o termo pós-modernidade foi consagrado no meio acadêmico e popular como justamente uma espécie de “vale-tudo” do pensamento. Para o filósofo Jean-François Lyotard, do ponto de vista acadêmico a pós-modernidade surge com o fracasso das grandes teorias que se propunham a explicar o mundo – fosse o marxismo, a psicanálise, o feminismo ou qualquer outra -, fracasso esse que traz a sensação de não ser possível chegar a uma verdade. Daí surge a ideia de que há várias verdades possíveis, e as ideologias passam a ser adotadas aos pedaços, conforme a escolha individual. No plano estético também o pós-modernismo é caracterizado pela mistura, pela apropriação de elementos do passado de forma acrítica. Segundo Fredric Jameson, ao contrário da paródia – que faz uma crítica histórica – trata-se de um pastiche, uma “canibalização aleatória de todos os estilos do passado, o jogo aleatório de alusões estilísticas”, que não mantém uma coesão com a história, nem para criticá-la nem para atualizá-la.

O MMA é assim. Como bem diagnosticou o colega Wilson Baldini Jr., no MMA o sujeito “é faixa-preta quarto dan de jiu-jitsu, sexto dan de taekwondo, sétimo de karatê, terceiro de judô… Caramba! Precisa de cinco vidas para somar tanta experiência.” Obviamente isso só é possível se não se domina plenamente uma técnica, mas apenas alguns golpes de uma e de outra. Como no caso das ideologias, pode-se montar um estilo aprendendo artes marciais aos pedaços. Mas essa apropriação superficial, desconectada da modalidade original, leva justamente ao pastiche, com grande prejuízo para a beleza da luta: enquanto o boxe é conhecido como “nobre arte” por requerer muita técnica e pouca briga, os próprios lutadores de MMA dizem que o trabalho deles é brigar.

Quem costuma ler esse blog sabe que não sou um saudosista revoltado. O MMA faz sucesso por refletir uma cosmovisão atual, não adianta lamentar-se e dizer que o boxe era mais nobre ou as justas mais elegantes. Ele também vai passar. Se tem uma coisa que a história ensina é que mais importante (e produtivo) do que lutar pelas coisas que mudaram é lutar contra aquelas que ainda precisam mudar.