Não adianta resistir: as listas vieram para ficar. “Dez momentos inesquecíveis do ano”. “Cinco animais mais fofos do zoológico”. “Doze gafes inacreditáveis que ocorreram ao vivo”. “Cento e trinta e nove discursos presidenciais incompreensíveis”. A lista das listas só cresce.

Resolvi eu mesmo entrar na lista, e elenquei cinco motivos para o fenômeno:

1 – O apelo da organização – Nosso cérebro funciona à base de sistematização. Ele evoluiu exatamente para categorizar as experiências, permitindo a previsão de fenômenos e manipulação do ambiente. Por isso adoramos uma lista: ela é a tradução em linguagem da função magistral do cérebro – sistematizando, classificando e organizando o mundo, satisfaz com perfeição esses instintos primitivos.

2 – O conforto do contraste – Sem parâmetros ficamos perdidos, angustiados, porque o tempo todo nós estamos avaliando o nosso entorno. Aquele carro está vindo rápido? Esse preço está barato? Esse tanto de comida é suficiente? Para fazer isso o cérebro se baseia em contrastes: alto, lento, caro, muito, tudo isso é determinado “em comparação com”. (Daí o sucesso das promoções – de tanto por tanto – e dos pratos grandes em restaurantes de kilo). As listas hierárquicas, que trazem classificações, ecoam essa necessidade do nosso cérebro de encontrar comparações. Não por acaso o Guinness Book é um dos livros mais vendido da história.

3 – A segurança dos checklists – Em nosso mundo complexo lidamos corriqueiramente com situações que demandam mais atenção e memória do que seria esperado no ambiente natural. Manipular a quantidade de variáveis envolvidas nas atividades modernadas é uma sobrecarga para nosso cérebro, levando frequentemente a erros. A introdução de listas de checagem (checklists) em cirurgias, por exemplo, evita com que passos sejam esquecidos, impede que ações sejam refeitas, melhora a comunicação da equipe, reduzindo em praticamente metade o número de mortes ou complicações pós-cirúrgicas, segundo um dos estudos seminais sobre o tema.

4 – A vantagem da objetividade – Informações estruturas em tópicos permitem uma economia de linguagem. Não é preciso gastar palavras para introduzir cada uma dos conceitos nem para articulá-los entre si, o que poupa muito espaço de texto e de processamento cerebral. Nesses tempos de leituras breves e rápidas, em que a objetividade é uma virtude, as listas se tornaram o caminho para alcançá-la.

5 – O alívio do fim – No começo do século XX uma psicóloga russa chamada Maria Rickers-Ovsiankina descreveu pela primeira vez que os seres humanos ficam desconfortáveis com tarefas interrompidas, exibindo a tendência de voltar a elas até que sejam terminadas (Efeito Ovsiankina). Aparentemente o engajamento inicial em uma atividade já nos convence da importância de ir até o fim, tanto atingindo o objetivo como completando a tarefa (sem atalhos). Evolutivamente vantajoso, já que pode ter ajudado nossos ancestrais a sobreviver, em tempos de internet o Efeito Ovsiankina nos vicia em jogos como Candy Crush e nos leva a ler as listas como essa até o fim.

ResearchBlogging.org
Haynes, A., Weiser, T., Berry, W., Lipsitz, S., Breizat, A., Dellinger, E., Herbosa, T., Joseph, S., Kibatala, P., Lapitan, M., Merry, A., Moorthy, K., Reznick, R., Taylor, B., & Gawande, A. (2009). A Surgical Safety Checklist to Reduce Morbidity and Mortality in a Global Population New England Journal of Medicine, 360 (5), 491-499 DOI: 10.1056/NEJMsa0810119