Quando escutei pela primeira vez o título do filme de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, nos idos de 2009, logo me apaixonei. A imagem que construí mentalmente na época foi dos avanços e recuos das marés, e de como são fundamentais os tempos de expansão exploratória e contração intimista para se consolidar uma relação duradoura. Movimentos que acontecem no exterior e no interior, como se essas ondas trouxessem algo de fora para dentro, e depois de dentro para fora, num continuum vital. Afinal é assim que a vida se constrói.

Acabo de voltar de férias e as paisagens do filme, rodado no sertão nordestino, inevitavelmente me vieram à lembrança. Venho justamente de lá, com uma passada deliciosa pelo também glorioso litoral alagoano. O regresso é muitas vezes uma amargura, e todo paulistano ao pisar novamente em seu solo natal se depara com quilômetros de trânsito, a cidade cinza e ontem, para coroar a desventura, chovia cântaros. Ao atravessar a cidade fui me dando conta de uma certa compressão sendo exercida sobre a recente descompressão de dez dias que havia acabado de se dar. Retornar para casa toma por vezes ares de depressão, mas para mim sempre um declive suave, vindo dos picos de uma experiência do extraordinário.

‘Show de luzes’ do final de tarde em Milagres. foto: Diego Cerviño Lopez

A possibilidade de olhar para horizontes mais amplos é bastante libertadora, e claro que terminar o dia com um ‘show de luzes’, como meu namorado Diego carinhosamente apelidou o pôr do sol deslumbrante de São Miguel dos Milagres, bastante diferente daquele com o qual estamos acostumados, nos permite valorizar a experiência presente e a riqueza do aqui e agora. O milagre de Milagres impactou minha retina fazendo-a mais viva, mais sensível. Volto para a cidade com olhos mais aptos a captar as sutilezas das coisas, embora claramente mais críticos com tudo de errado que temos construído como civilização. Ontem brincamos sobre a contradição entre o pôr do sol de cada um dos dias da última semana e o “show de luzes” esquizofrênico do meu vizinho – um shopping, ou mall para os íntimos, como nosso prefeito deslumbrado.

A esquizofrenia insustentável das luzes urbanas. foto: Gustavo Calazans

A chegada em casa por sua vez substituiu a sensação de desamparo por uma profunda felicidade de adentrar o meu lugar. Olhando minha casa novamente depois de um período de ausência, vejo que a minha relação com meu lar necessita igualmente desses períodos de distanciamento para aprofundar meu contato com ela, fazendo dela cada dia mais meu porto seguro. Reencontrar esse espaço onde minhas lembranças estão aglutinadas, plasmadas entre paredes que se assemelham a um útero da maturidade, me põe em contato com tudo que escolhi, ou pelo que fui escolhido, como meu constituinte. Conteúdo e continente novamente no vai e vem em dança do continuum existencial.

Da viagem trago não apenas imagens amorosamente armazenadas dentro de mim, como também objetos que me farão lembrar dela por muito tempo ainda. Um dia talvez minha memória falhe, e eu nem sequer me recorde conscientemente dos fins de tarde milagrosos, mas certamente n’algum lugar do meu ser, haverá a liberação de alguma substância potente, que me fará querer novamente desbravar outras paisagens atrás daquilo que ainda me falta encontrar em mim mesmo.

Peço licença para parafrasear o filme. Viajo por que preciso, volto por que te amo, meu lar.

O lindo banco de Salvinho, trazido da Ilha do Ferro. Mais uma memória armazenada no meu lar. foto: Gustavo Calazans