Tem aqueles dias em que a gente parece ter perdido o endereço da própria casa, ou não tem ideia de onde a chave da porta de entrada possa ter ficado. Deslocamo-nos tanto do nosso eixo que nos tornamos irreconhecíveis para nós mesmos. A vida frenética que levamos, os tempos obscuros com tantas polêmicas e tantos desencontros de todos os lados e o acirramento das pressões envolvendo a nossa sobrevivência e a (in)segurança social tem nos deixado muito vulneráveis. Não ‘sair da casinha’ nesses tempos é uma tarefa hercúlea. Há que se ter muita determinação e serenidade para enfrentar os desafios que temos vivido.

Não há nada mais confortável e acolhedor nesse mundo do que se sentir no lugar certo, na hora certa. ‘Sair da casinha’, para mim, equivale a não encontrar um lugar de sossego existencial, quer seja no espaço interior, na calma do nosso ser; quer seja no exterior, no aconchego do nosso lar. A falta de uma bússola para encontrar esse lugar de onde possamos falar com ‘propriedade’, esse que construímos diligentemente por nós e para nós, nos condena a um quartinho no porão escuro do medo.

Nem todo deslocamento é ruim e nos remete à escuridão paralisante. Há aqueles que são fundamentais para que a percepção sobre a experiência humana seja mais complexa e rica. Olhar a realidade pela perspectiva do outro é um exercício importante se queremos entender pontos de vista diferentes e compreendermos a realidade de forma menos unilateral e achatada. Atentar à profundidade e às nuances de claro e escuro de cada situação da vida é uma prática que nos faz voltar ao eixo, sempre que dele nos afastamos. Surpreendente como um deslocamento no âmbito correto permite que outro, equivocado, se alinhe.

Semana passada ‘saí da casinha’ como há muito não acontecia. Os muitos assuntos complexos da realidade contemporânea têm preenchido minha cabeça de tal maneira e de tantas fontes que quero sorver para entender os acontecimentos e seus desdobramentos que, quando me dou conta, estou cheio do mundo dentro de mim, e não me acho. Incrível pensar que basta um pequeno deslize e lá se vai a tranquilidade conquistada com tanto esforço.

Mas seria injusto dizer isso. Assim como nosso corpo é capaz de guardar a memória de exercícios físicos feitos ao longo de períodos intermitentes, somos igualmente capazes de recuperar estados de ânimo mais equilibrados que se eclipsam momentaneamente detrás de nuvens densas de ignorância e amedrontamento. Foi preciso respirar fundo por alguns dias para lembrar que as coisas precisam de tempo para se depositarem, assim como nós precisamos de doses equilibradas de abertura e fechamento ao mundo. Ainda assim, a experiência do esvaziamento interior, na falta de domicílio existencial, deixa suas marcas. Não encontrar um lugar de compreensão é das experiências mais angustiantes que podemos sentir.

Acredito que vivemos tempos de desassossego coletivo. Há muito medo por toda parte, e nessa cultura do medo que vai se instaurando há cada vez menos espaço para sermos de verdade, com presença, atitude crítica e consciência. O receio do julgamento alheio e das opiniões extremistas de tantos nos vai deixando mais e mais acuados para defendermos aquilo que sabemos ser o correto. Vejo muitos duvidando das intenções de outros, em movimentos persecutórios, e enxergando problemas mais sérios onde não existem, na tentativa de encontrar culpados que justifiquem o incômodo dessa falta de lugar de conforto e apropriação. Se não encontramos paz e tranquilidade, ‘não é por responsabilidade nossa’, diz a maioria. ‘É o mundo cão que não me deixa seguro, não deixa meus filhos seguros, não deixa minha casa segura.’ O fato é que a insegurança é um estado de espírito. Não interessa o que possamos fazer no mundo exterior para que ela pareça se reforçar, de nada adiantará.

Quando chegamos num ponto em que não somos capazes de interpretar o mundo livremente pelos nossos próprios olhos e por nossa própria experiência – e consequentemente permitir que os outros também o façam -, é chegada a hora de voltar para casa. E sentir-se em casa, nesse momento, deve assumir a forma de ‘sentir-me casa’.