foto: Arquivo Pessoal

Com essa frase acachapante, Jean-Yves Leloup, filósofo e sacerdote francês, nos põe frente à frente a uma possibilidade dura e difícil para olhos acostumados à normalidade e a estabilidade como parâmetros de bem-aventurança na vida. Diante do ‘incêndio’, que salvemos o fogo.

A escolha pelo fogo é sábia. Pensador que teorizou o conceito de normose – ou a patologia da normalidade – onde hábitos e práticas tidas como ‘normais’, ao mesmo tempo são expressão de um caráter adoecido da sociedade, como é por exemplo o consumismo desenfreado dos nossos tempos – tão normal e tão doente -, Leloup nos convida a pensar o que efetivamente tem importância nas estruturas da existência.

Engraçado que me lembrei dessa frase nessa semana, tendo começado recentemente esse texto com o título provisório de ‘O lar que me consome’. E devo reconhecer que não sabia muito bem onde queria chegar com essa primeira ideia. Até que minha mente trouxe essa lembrança. Um grande amigo mantinha uma filipeta com essa frase colada num dos pilares de sua casa. Recordo que a primeira vez que li esse escrito impactante rabiscado em caneta fina, num leve papel preso ao tectônico pilar de sustentação, achei tudo aquilo de uma poesia tão precisa quanto um bisturi afiado. Beleza e dor reunidas em concreto e celulose. Eu era então jovem, e em verdade naquele momento enxergava essa imagem com mais receio do que vejo hoje, ao imaginar a cena da casa consumida pelo fogo e a preocupação sendo posta não no apego à forma/matéria, mas focada em manter o fogo aceso.

Eis então uma definição de lar que, a partir dessa perspectiva, passou a fazer muito mais sentido: ‘lugar onde se acende a lareira, o fogão, o fogo’. Entendo aqui que a qualidade de aquecimento aparece como aquilo que diferencia uma casa de um lar. Inevitável pensar na figura mitológica de Prometeu, aquele que rouba o fogo dos deuses para entrega-lo aos mortais. Não só o fogo simbólico da vida, como também aquele que propicia a vida com seu calor e a sua capacidade de transformação. Uma casa sem fogo é uma casa morta.

O lar em chamas que nos consome já estava no meu imaginário, mas um conceito ainda vago. Guiado por essas novas referências, a ideia de que nosso lar consome nossa capacidade vital, uma vez que a transforma em matéria – com todo o caráter simbólico que essa sempre abarque -, me fez entender o fogo sagrado de nossas casas como algo a ser cultivado e preservado.

Que não fiquemos aprisionados às aparências do que nos faz aconchegados, mas ao que de verdade aquece nossos corações. E que de nossas casas, se salve seu espírito em brasa.