Se essa rua, se essa rua fosse minha

Eu mandava, eu mandava ladrilhar

Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante

Para o meu, para o meu amor passar

 

Viela ao lado da Avenida Paulista ladrilhada de pétalas de primavera. foto: Gustavo Calazans

 

A cantiga popular escancara um sonho antigo cada vez mais vivo em nosso imaginário, e que sentimos cada dia mais próximo de se tornar realidade: o desejo de que as ruas sejam, de verdade, continuidade de nossas casas. A cidade como uma grande casa compartilhada onde todos se sintam em casa. Onde possamos ser e estar como somos, sem ressalvas, e no mais absoluto respeito às diferenças. Dividir o mesmo espaço coletivamente e, ainda assim, nos permitirmos momentos de intimidade, como quem ao mesmo tempo se hospeda e recebe hóspedes. Deixando todos à vontade, mas sempre atentos aos contornos da responsabilidade e do respeito mútuos.

Toda vez que combinamos liberdade com respeito numa mesma equação existencial, o resultado não pode ser mais auspicioso. Por outro lado, essa mistura sempre exige na operação graus elevados de tolerância e fluência na comunicação – e tantas vezes também na tradução, tendo em vista que os desencontros enfrentados cotidianamente podem, facilmente, nos levar a acreditar que falamos línguas diferentes numa mesma casa, ou num mesmo país. O exercício do convívio praticado em famílias, casais, amigos, parentes, conhecidos e coabitantes dos mais variados tipos nos conta que administrar relações humanas não é tarefa fácil.

Lares se constroem justamente nesse delicado equilíbrio. Por não ser fácil, o esforço colocado nessa busca de mínimos denominadores comuns, quando encontrados, vem seguido de um profundo senso de realização. Nesse desafio somos convocados a prestar atenção concomitantemente para as nossas necessidades e para as necessidades dos outros. Enquanto houver alguém que sinta que suas necessidades não estão sendo atendidas, não haverá harmonia – assim como quando criança, brigávamos com nossos irmãos ou primos, e lá íamos todos para o castigo, na vida adulta vamos aprendendo, lentamente, que só relações do tipo ganha-ganha são sustentáveis e permitem que todos sejam mantidos de forma saudável na ‘brincadeira’.

Lembro de discussões acaloradas com minhas irmãs, na infância, para decidirmos quem comandaria o controle remoto da TV – e, portanto, teria o direito de determinar o que todos assistiriam. Já naquela época essas questões relativas ao bom convívio humano me afligiam tanto que cheguei a redigir, numa ancestral máquina de escrever compacta da Olivetti, uma minuta – não me perguntem de onde um menino de 9 anos tirou esse termo, mas era assim que se chamava – contendo regras que normatizavam a convivência. Essa minuta foi assinada por todos e guardada no cofre de casa. Pensando em retrospecto, hoje, tenho dúvida se as regras que criamos eram as mais justas. Lembro que se fôssemos três ou mais na sala, a maioria sempre venceria, não importasse quem tivesse chegado primeiro à televisão. O fundamental é que todos concordaram com elas e, assim, os conflitos se apaziguaram.

Da já difícil tarefa de gerenciar o comando dos canais de TV entre crianças para a complexa arte de dividirmos o espaço público, pode sim haver um abismo. Por outro lado, algo me diz que o exercício da convivência, seja em qual escala for, sempre colabora para azeitar todas as nossas relações. Ir para a prática. Aí me parece residir uma das melhores formas de aprendermos a lidar com as diferenças. Treinos que começam com as nossas próprias diferenças internas, e como vamos aprendendo a lidar com a grande complexidade e contradição que habitam em nós; daí às divergências que se desdobram em casa, em família ou com nossos amigos mais íntimos; seguidas por aquelas que pulam feito um palhaço para fora das nossas caixas postais ou redes sociais; e seguem na reunião de condomínio; no grupo de moradores da rua, do bairro, do conselho da escola; nas discussões políticas acaloradas das eleições municipais, estaduais, federais. Viver em comunidade é um constante ato de negociação – interna e externa. Negociações que, se espera, sejam justas. E para isso, pressupõe-se que todos os lados sejam respeitados e tenham os mesmos direitos e deveres perante o agrupamento. E, assim, o sonho de nos apropriarmos de verdade dos espaços coletivos e conseguirmos coabitá-los em harmonia pode se tornar uma realidade.

Quero te contar que essa rua, essa rua pode ser muito nossa. E que é lindo e lícito que a queiramos assim, para que todos, todos os nossos amores possam passar.

Avenida Paulista aberta aos domingos. foto: Mariana Bernd