imagem: Gustavo Calazans Arquitetura

Diante das incertezas do caminho e de todos os riscos da vida – Guimarães Rosa já nos alertava sobre o quanto viver é perigoso – o desejo de termos controle sobre tudo o que possa nos acontecer é muito tentador. Mais do que uma tentação, uma quase inevitabilidade humana. Não é à toa que o conceito budista de impermanência seja um dos mais difíceis de ser assimilado e posto em prática. Se nos lembrássemos diariamente que de fato a existência mais parece com um passeio numa prancha sobre a água, isso certamente nos exigiria uma elevada dose de autocontrole e atitude zen, o que é para poucos. Uma vez que nada se mantém estável para sempre, manter uma atitude de aceitação quanto a essas oscilações das marés existenciais parece ser a única saída – ainda que esperneemos vez por outra. Se evitar o que possa dar errado nos impeça de buscar o movimento que nos levará aos acertos, estagnamos.

Quanto mais físico e tectônico for um assunto, mais exigimos garantias de assertividade. Até toleramos a abstração em temas abstratos, mas no que se refere ao que é de ordem prática, deixamos nosso lado controlador extravasar e queremos que tudo funcione como achamos que seja a melhor forma. E ai de quem ousar nos dizer que há uma solução diferente, pior ainda se julgar que essa seja melhor do que a nossa. Um amigo costumava dizer uma frase ótima: ‘como a gente acredita naquilo que a gente acredita’. E assim as crenças vão nos aprisionando.

Uma casa é sólida, aglomerado de carbono em diversos matizes, tamanhos e estilos. Já o seu projeto orbita na esfera do abstrato – entendendo aqui projeto como o planejamento de qualquer ação, ou seja, independente de ele ser ou não conduzido por um profissional. Da concepção à realização, o resultado desse processo de idealização é dos melhores e maiores exemplares da concretude material. E se na casa pronta não queremos falhas, não aceitamos impurezas, enquanto ela ainda está em nossas mentes é que a porca torce o rabo. Ali parecemos todos enamorados com nossas ideias, com nossos sonhos, acreditando que tudo o que desejamos será possível de ser executado e que não nos decepcionaremos.

Mas a verdade é que todo esse controle não nos ajuda a transformar nossa casa num lar. Pelo contrário, dificulta. Não nos permitir ajustes de rota, ou uma boa parcela de maleabilidade que permita que os planos possam ser revistos e reavaliados impede que aquele espaço possa se ajustar bem aos seres vivos que somos, com toda a nossa complexidade e ritmos internos. Embora a casa pareça inanimada, ela pulsa de acordo com a vida que somos capazes de outorgar a ela. Somos nós quem devemos animar os objetos e não o contrário.

No lugar dessa remota – e ilusória – possibilidade de controle, que busquemos a maestria de dominar a relação que estabelecemos com o nosso ninho, sempre preservando os seus limites fluidos e elásticos.