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Morar é uma relação de amor. Desde a proteção uterina, cujos limites nos fazem começar a entender quem somos, o lugar que habitamos, para além de mero continente, será sempre parte constituinte da pessoa na qual vamos nos tornando. Nasci de fórceps. Logo de saída, deu para entender que minha relação com as paredes protetoras que me separavam do mundo não seria o melhor exemplo de desapego. Exercício de equilíbrio entre encontrar conforto dentro de muros e, ao mesmo tempo, saber quando é hora de rompê-los para buscar novos horizontes mais amplos, onde outros conceitos de acolhimento se descortinassem.

Vivi em algumas casas, não muitas. A pouca intimidade com a ideia de mudar nunca representou desafio para minha profunda parceria com o morar. No lugar de mudança, prefiro a “morança”. Isso talvez porque eu sempre tenha acreditado na construção vagarosa dessa relação, como um conquistador diante de um imenso e desconhecido território. Tomei tamanho gosto pela brincadeira que me vi arquiteto – diria que não só por vocação, mas por constituição ontológica. Lembro de me deitar no chão do quarto e imaginar vastos impérios que se espalhavam nas manchas deixadas pelos movimentos feitos sobre a superfície do carpete felpudo. Com o tempo esses impérios invadiriam corredor, sala, cozinha. Aquele era o meu lar. E eu aquele que, em jogos aparentemente ingênuos, aprendia a me apropriar da concretude da vida.

Li outro dia uma definição do morar que fez algo se encaixar dentro de mim. Morar. v.t.i. habitar; morada em algum lugar, partilhar a mesma habitação, enraizar-se. etm. do latim morare: demorar-se, entreter-se, obrar com lentidão. Sim, obrar com lentidão. Nunca uma definição foi tão precisa, afinal morar é mesmo uma obra lenta, praticamente uma tarefa infinita. Como muitos, sonhei com um lugar só meu. Cheguei nele cedo, antes dos 30 anos. Por anos ali me entretive, me demorei prazerosamente nos seus cantos e encantos, obrei com vagar e confesso que me deliciei fartamente. Era como se aquele pequeno menino tivesse estabelecido ali a capital do seu império.

Mas sonho que é bom, assim como a gente, se renova. Agora tenho outro, desses que nos perseguem sem dar trégua. Despertou quando me dei conta da solidão e da vulnerabilidade dos reinados absolutos. O conforto do porto seguro foi substituído pela urgência da partida, e me vejo hoje querendo abandonar a torre de controle em busca da convivência afável com outros que também queiram abdicar do aprisionamento dos espaços só seus, para construção de um espaço comum, nosso. Volto à definição: “partilhar a mesma habitação”.

Sim, morar é uma relação de amor. Um amor infantil, possessivo sobre seus domínios, onde nos compreendemos pelo que temos; ou um sentimento generoso que se nutre no outro e pelo outro, encontrando sua força naquilo que nos é diferente e no que se estabelece na nossa coexistência. Sonho bom esse. De um espaço onde possamos, para além de morar, enfim comemorar.

Foto: seier+seier via Visual hunt / CC BY

Photo credit: seier+seier via Visual hunt / CC BY As Fredensborg Houses, conjunto habitacional no norte da Dinamarca desenhado pelo arquiteto dinamarquês Jørn Utzon, são consideradas com precursoras dos famosos cohousings, ou casas compartilhadas. Meu sonho é de que tenhamos uma vida mais compartilhada na companhia de quem amamos.