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Trabalhar com arquitetura é uma aventura. Descobri isso nos primeiros meses como estagiário em um escritório. A faculdade já demonstrava um pouco dessa obsessão maluca a que arquitetos são expostos. Somos convocados a atender demandas muitas vezes irreais e aclamados quando vitoriosos sobre o domínio da matéria. Mas foi na prática real e nas primeiras experiências de manejo efetivo da realidade concreta que me dei conta do tamanho da encrenca em que tinha me metido. Entendi de pronto que, além de ter escolhido uma profissão pouco valorizada e mal remunerada, teria que desenvolver uma maestria no controle sobre os elementos físicos para conseguir atingir os objetivos colocados pelos clientes, pelos meus pares e por mim mesmo.

É necessário o desenvolvimento de habilidades que permitam operar nesse métier com uma certa desenvoltura. Aprender a se relacionar com pessoas talvez seja o mais importante, uma vez que a construção depende de grandes e variadas equipes, além da insubstituível relação com os clientes. Para isso é fundamental calibrar a comunicação para lidar com as diferentes partes envolvidas numa obra, do encanador ao engenheiro hidráulico, passando pelo vendedor de encanamentos e pelo responsável da entrega, isso só para ilustrar com um tópico específico a variedade de subdivisões em que vão se derivando para que uma mera torneira tenha água limpa por exemplo. Imagine que uma obra tem uma infinidade de assuntos diferentes sendo orquestrados ao mesmo tempo, todos com vários tentáculos como o exemplo da torneira. É tanta coisa que manter tudo organizado e operando em harmonia é uma tarefa tão hercúlea, que a torna de verdade, irrealista. Uma construção não tem como dar certo, se esse “certo” for de uma expectativa muito elevada.

Ano passado, quando a casa de uma cliente psicanalista ficou pronta, ela me chamou num canto para me dizer que, embora já tivesse atendido arquitetos em seu consultório e achasse já entender o drama que vivemos cotidianamente, com o fim da obra a sua admiração pelos que escolheram essa profissão só tinha aumentado. Como pessoas poderiam se pré-dispor a usar seus talentos para coordenar tantos assuntos e se expor a tamanha carga de frustração? Embora alguns sejam generosos e tenham essa compreensão, por outro lado, os olhos de quem está envolvido no processo de construção de sua casa são, no geral, impiedosos. Nos relacionamos com crueldade ao avaliar os resultados atingidos, esperando alcançar nada menos do que a perfeição – como se essa fosse tangível e nós, capazes de atingi-la.

Isso força profissionais a ficarem cada vez mais neuróticos na tentativa de evitarem falhas. Como não sabemos qual a falha que irá assolar alguma obra ou deixar algum cliente maluco, lutamos contra todas. Somos pagos por nossa capacidade de enlouquecimento e a colocamos a serviço dos demais. Enlouquecemos antes dos outros, sacrificando-nos em nome dos outros. Há uma enorme parcela de auto-sacrifício na construção de uma casa, e claro que não apenas dos profissionais nela envolvidos. Participar do fazer do seu próprio lar também exige muita negociação interna e boas doses de aceitação.

Jamais o imaginado será atingido, uma vez que o que nossa mente entende ser possível sempre extrapola os limites da realidade. E o detalhe é, talvez, a maior representação dessa intangibilidade. Impressionante verificar como essa obsessão pelo que é perfeito e belo pode nos levar a valorizar em demasia os detalhes. Piramos com um rodapé torto, quando o que realmente importa muitas vezes está sendo esquecido. E somos levados a acreditar que o segredo está justamente nos detalhes. E veja bem, não são apenas os arquitetos vítimas desse processo. Todos somos reféns do vício da perfeição e da sua busca frenética. Pode parecer que tenha feito aqui um desabafo profissional de alguém que tenha cansado de ser exposto aos desejos muitas vezes infantis de seus clientes, mas não é isso. Só uma constatação triste de que colocamos nossa atenção, na maioria das vezes, no foco equivocado. Olhamos para perto, quando deveríamos olhar mais ao longe.

Se o segredo está nos detalhes, eu não sei dizer. Mas posso dizer que esse foco sobre os detalhes de uma obra, de uma casa, dos nossos corpos, da vida, nos afasta da possibilidade de entendê-la com mais amplitude e liberdade. Nos aprisionamos nesses detalhes para disfarçar nossa falta de um sentido maior, de entendimentos mais profundos da existência que façam desses mesmos detalhes, meros detalhes. E enquanto a vida fica desgovernada, nos preocupamos com os riscos no piso de madeira.