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O lar e a arte de descombinar

Gustavo Calazans

07/12/2017, 2:12

O lar de um grande amigo meu, que contou com a minha ajuda, mas que foi muito além, encontrando soluções próprias que o ajudaram a criar um novo vocabulário do que seja “combinar”. Foto: Julio de Paula

Como a gente se preocupa para que as coisas combinem entre si, não? Podemos ficar uma vida inteira buscando um parceiro que julguemos que combine com a gente, assim como vamos vagarosamente encontrando amigos e turmas onde as afinidades nos unam – e, assim, nos sintamos em sintonia, afinados. Encontrar harmonia na vida parece ter se tornado uma busca que faz sentido. Mas como toda busca, ela nos leva por caminhos muitas vezes desconhecidos e em muitos momentos, nos deixa perdidos no meio de labirintos. Por vezes nos distraímos e lá estamos nós outra vez tentando encaixar quadrado em buraco circular – basta lembrar do brinquedo mais tradicional da infância para sacar o quão importante é, para a nossa sociedade, que entendamos de encontros acertados.

Só que essa fórmula, que aprendemos desde tenra idade, também encontra seu ponto de exaustão. Fazer tudo aparentemente direito – ser bom filhe, bom profissional, bom amigue, bom amante – pode não nos garantir harmonia eterna, uma vez que vivemos num mundo de impermanência. Chega uma hora da vida em que as formas não são mais estanques e definitivas: quadrados se tornam círculos em questão de segundos, e já não dá para confiar nos métodos desenvolvidos pela lógica cartesiana. Quanto mais vamos nos libertando de amarras e ampliando nossa percepção da interdependência das coisas, mais hábeis seremos para abarcar encontros menos óbvios.

Se as regras que regem o universo não são de fácil compreensão, o que dizer então quando o assunto é assimilar aquilo que já entendemos na cabeça, e fazer disso algo que vai para o corpo e para a ação? Desafio bom esse de viver a vida aprendendo a cada dia novas formas de ser e estar no mundo. E aquele brinquedo infantil será substituído sucessivamente por novos quebra-cabeças mais avançados, onde muitos deles não encontrarão no encaixe a sua premissa maior e primeira.

Posto isso, posso dizer com bastante convicção que o lar é o melhor espaço para praticarmos a arte de descombinar. Nesses anos todos acompanhando pessoas na construção de suas casas, e alguns desses na conquista de seus lares – que não é tarefa fácil e nem todo mundo alcança esse estágio tão rapidamente -, posso garantir que o momento em que pude ver espaços se tornando algo além de mero amontoado de matéria tem a ver com uma apropriação muitas vezes considerada ‘indevida’. É quando a pessoa consegue dar um passo sem a ajuda das mãos de mais ninguém que a casa se transforma num refúgio onde não há preocupações com julgamentos e avaliações. E desses saltos no vazio, onde não se sabe muito bem aonde vai chegar, é que encontramos os embriões do nosso lar.

Podemos errar? Claro! Mais do que isso, devemos errar. E depois refletir sobre o ‘erro’ até entender que não era erro, mas movimento em processo de acerto. Esqueça a melhor cor para combinar com os tons do quadro que ganhou, assim como não acho que você deva se preocupar com o vinho que harmoniza melhor com o peixe que você irá servir. Encontre novas combinações – seus próprios acertos – descombinando.

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