Ditados populares muitas vezes carregam grandes verdades. Acho que daria para escrever um blog inteiro só no exercício de encontrar as verdades escondidas nessas frases sábias que tantas vezes só encontram lugar na boca de nossas avós ou num para-choque de caminhão. E se em terra de cego quem tem olho é rei – e o universo dos especialistas está aí para confirmar isso – em casa do ferreiro, espeto é sempre de pau. Comigo não é diferente. Apesar de trabalhar há mais de 18 anos ajudando pessoas a construírem seus lares, eu mesmo me debato diariamente na construção do meu.

Como assim, esse arquiteto especialista vem me contar que ele mesmo não sabe fazer da própria casa um lar? E ainda se propõe escrever um blog com reflexões sobre o tema? Sim, é isso mesmo – e talvez seja por essa razão que consigo brincar disso com os outros por incansáveis anos. Esses mesmos que dedico à tentativa de extrair de minhas paredes, mobília e objetos, valor simbólico para além da mera reunião de coisas.

Foto: Pixabay

Intuo que escolhi o fazer na vida a partir de uma questão existencial básica: busco aquilo que me desafia e, ao mesmo tempo, me interessa. Uma questão a ser resolvida, algo que me coloca em xeque. Talvez foi para mim desafiadora a vivência nos espaços que habitei, quiçá uterinos. Mas o que importa agora é dizer que sou arquiteto por que sabia pouco desse fazer e para mim encontrar conforto nos espaços era – e ainda é – precioso.

Vivo num apartamento que pode ser chamado de belo, tudo no seu devido lugar, script seguido à risca. Embora os outros digam que se sentem muito à vontade por lá, o que torna a casa lar de verdade não é algo que diga respeito ao outro, mas sim ao que nós, moradores, sentimos nela. Encontrar o bom encaixe com o ambiente que se vive não é tarefa fácil – e mais do que isso, não é um ponto estático atingido. É processo dinâmico e vivo, feito de encontros e desencontros. Sistema orgânico, posto que fruto da constante intervenção dos seres que a habitam. E assim é minha casa, meu laboratório pessoal, onde exploro territórios na tentativa de entender o que me faz sentir aconchegado, ainda que livre; representado, ainda que em constante descoberta. Sem garantia alguma de que no fim do dia não serei vítima de algum estranhamento, quer seja pelo exagero na preocupação estética, pelo aprisionamento à ordem das coisas ou pela não disposição à interação com o que não sou eu.

Expor a fragilidade que vivencio na composição do meu lar não tem outra função senão a de reafirmar que especialistas são, em verdade, apenas pessoas comuns que experimentam mais um determinado aspecto da vida. Isso as torna mais experientes, mais hábeis, mais conhecedoras do riscado. Creio pouco em dom. Prefiro acreditar na abertura, no comprometimento e na dedicação: e disso todos somos capazes.

Ditados podem carregar grandes verdades. Assim como se diz “quem casa quer casa”, eu digo, por experiência própria: quem quer casa, quer lar.