Imagem: Pixabay

Descolado. Está aí uma expressão que eu nunca entendi muito bem. Sempre fico pensando como e de onde uma expressão idiomática nasce. Tenho pensamentos curiosos semelhantes quando imagino como terá sido a descoberta de que uma alcachofra seria comestível, que ela teria uma parte no seu interior que, uma vez cozida, seria deliciosa. Quem descobre essas coisas?! Perdoem, me descolei do assunto. Retornando à minha incompreensão, penso se tudo não começou com alguém certo dia soltando a frase – ainda sem saber se seria bem compreendido – “fulano é super ‘descolado’!”. Provavelmente seus interlocutores tenham se olhado meio de canto de olho, se perguntando: “o que exatamente ele está querendo dizer?”

Li algumas definições que colocam o termo como sinônimo de esperto ou safo, alguém que se vira bem nos círculos sociais, alguém com desenvoltura e bom papo. E deve mesmo ter algo a ver com alguma analogia a uma criança que, ao crescer, larga da barra da saia da mãe, se descola, não vive mais aprisionado em seu mundo ou restrito aos seus conhecidos. Desbrava os novos territórios com coragem e interesse. Descolar de algo que se estava colado – ou descolado como aquele que nunca se colou muito em nada. Há claramente uma visão positiva no termo, de quem consegue estar liberto de algum tipo de amarra ou timidez. Talvez uma reflexão importante nos nossos tempos de relações líquidas seja identificar aqui uma certa supervalorização dos que conseguem não criar vínculos mais profundos que os restrinjam, atados por muitas amarras. Se colar demais, pode não conseguir se descolar nunca mais.

Bem sabemos que o termo literalmente se descolou dessa vertente pessoal e passou a designar coisas ou lugares que tenham um caráter moderno, inovador, criativo, e outras muitas possibilidades que indiquem uma conotação “prafrentex” de algo que se alinha com ‘o novo’. Frequentar lugares descolados, ou ter uma casa descolada, entrou na moda, virou mania. Assim como pensar fora da caixa ou quebrar paradigmas. Quem, nos dias de hoje, quer ser identificado como representante do passado? Queremos o futuro, e a passos largos. Mesmo que seja só na forma de nossas roupas e nossas casas, e não necessariamente nas nossas ideias ou ideais.

E é aqui que acontece o maior descolamento de todos: quando a nossa aparência e das nossas casas se tornam mais importantes do que a nossa essência. Nunca foi tão importante parecer novo, ao passo que nunca foi tão difícil se manter íntegro. A novidade nos bombardeia, cotidianamente. E somos convidados para um baile de máscaras, nas redes sociais, virtuais ou não. Cabe a nós decidir se aceitamos.

Como a música já diz, “é preciso estar atento e forte”.