A vida é como ela é e os fatos se sucedem continuamente. Uma experiência acontece apenas uma vez, e os eventos são únicos em nossa existência. Por outro lado, as lembranças que vamos carregar de cada um desses momentos que vivemos serão muitas, e elas podem – e devem – se transformar ao longo do tempo. Além de nossa capacidade de armazenar memórias relativas ao que se passou, temos também a liberdade de reinterpretar essas marcas e o que elas irão representar para a gente. E assim vamos flanando por um emaranhado de acontecimentos e impressões sobre tudo isso, somados a todas as impressões daqueles que cruzam no nosso caminho, e às impressões que temos sobre tais impressões, numa escalada sem fim.

Estou lendo o último romance do incrível Kazuo Ishiguro, chamado O Gigante Enterrado. No livro, em uma história alegórica passada numa época um pouco posterior à do rei Artur e seus cavaleiros, uma névoa estranha apaga a memória dos personagens, que de tão desprovidos de lembranças chegam quase a perder sua própria identidade. Não sendo capazes de se recordar daquilo pelo que passaram, não conseguem estabelecer quem são. Interessante perceber que as casas do livro são descritas como espaços quase sem vida, uma vez que carecem dos sentimentos impressos nas coisas que todos acumulamos.

Sem a capacidade de acessar as marcas deixadas pelos acontecimentos, não temos um lugar no mundo. Das recordações de momentos felizes e eufóricos – como as marcas dos confetes e serpentinas da minha última festa de aniversário – às lembranças dolorosas de crises e depressões, como quando nos derrubamos no sofá da TV, tudo o que existe debaixo do teto de nossas casas ficará inevitavelmente sedimentado ali. Sentimentos se misturam com sentidos, em aromas e odores que nos remetem a pontos no tempo, ou o toque das almofadas do sofá quando tudo o que precisávamos era de aconchego. Só há relação quando há memória, e só há lar quando nos relacionamos verdadeiramente com nossas casas.

As marcas da felicidade: manchas de confete e serpentina no piso da minha casa após meu último aniversário. foto: Gustavo Calazans

Se tudo nos marca e se essas marcas todas vão sendo representadas e simbolizadas na materialidade de nossas casas, há que se tomar decisões de tempos em tempos quanto ao que fica e o que deixamos ir. Como na história de Ishiguro, talvez todos sejamos envoltos em névoas do esquecimento voluntário vez por outra, escolhendo lembrar de algo para depois podermos nos esquecer. Guardando algo até o dia em que aquilo deixe de nos fazer qualquer sentido, liberando espaço em nossas memórias e permitindo que busquemos novos símbolos mais amigáveis às marcas mais recentes dos galhos que ladeiam o caminho percorrido.

Somos, afinal de contas, aquilo que escolhemos nos lembrar e guardar do que vivemos e nossas casas são, igualmente, aquilo que quisemos que representasse essa memória de quem somos.