Eram os anos 80 e Vinícius fazia sucesso com seu mais novo clássico: “era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada”. Até hoje não consigo parar de pensar que essa música falava de uma casa que, de tão sonhada, nem existia.

É isso que sinto quando escuto alguém me dizer que terá uma casa linda quando receber uma herança daquela tia avó quase imortal, quando o destino parar de lhe sacanear e liberar aquela promoção tão esperada há anos, ou ainda quando a sorte grande finalmente bater à sua porta e a mega-sena lhe sorrir. A casa bela, aquela sonhada e planejada, parece existir apenas quando acompanhada desses sinais de boa fortuna. Sem sorte e muito dinheiro, melhor nem tentar.

Sou arquiteto e em minha prática questões sobre identidade e pertencimento – ou a falta deles – sempre permearam a conexão com meus clientes. Quando meus caminhos profissionais me permitiram falar com um público mais amplo – ao tocar por 5 anos a produção de ambientes publicados no material editorial da rede francesa Leroy Merlin e depois concomitantemente como consultor do quadro “hoje em casa” na Rede Globo – pude perceber esses mesmos dilemas se repetindo na construção da casa de quem não tem ninguém ao lado para auxiliar. E mais, que esse auxílio nem sempre colabora quando o assunto é autenticidade.

Assim nos deparamos com outra lenda: que a felicidade reside em uma casa que atenda a determinados padrões estéticos e seja classificada como bela apenas se ela se parecer com aquela casa da revista ou o apartamento do núcleo rico da novela; indo além, que para alcançar isso a presença de um especialista seja fundamental. Novas suposições que nos afastam ainda mais dos nossos sonhos: agora não preciso ser apenas sortudo e rico, preciso de alguém que valide o que eu acredito ser melhor para mim.

Desatar esse emaranhado de desejos e frustrações é a tentativa que pretendo fazer por aqui. O que faz de uma casa, com toda a sua concretude material, um lar? Como fazer para que nossas casas sejam lares que permitam abertura para a diversidade, e que sejam testemunha de experiências pessoais próprias e autênticas?

Fica aqui o meu convite para que investiguemos juntos o que distancia a casa muito engraçada de Vinícius de um lar preenchido de risos e de graça.