Lar é organismo vivo. Assim como a barriga da mãe se dilata para acolher um embrião, nosso lar tem essa mesma capacidade de expansão que o diferencia radicalmente de uma sólida casa de paredes limitantes e territórios definidos. No mesmo espaço onde moravam dois, hoje moram quatro, seis, oito – e vice-versa. Ambientes e relações se redefinem, mas a capacidade de acolhimento às transformações é qualidade intrínseca de um lar. Tecido rico onde famílias se constituem nas suas mais diversas expressões, mas sempre com uma coisa em comum: a comunhão humana em encontros significativos.

No aconchego do nosso primeiro lar. Fonte: Pixabay

Mais do que isso, a vida que pulsa num lar não é sempre constante. Nossa casa se aproxima de um lar e se afasta de sê-lo uma quantidade infinita de vezes. Quando encontramos acolhimento no espaço que vivemos e nele reconhecemos nossas raízes, nossa história e aquilo que valorizamos – e, portanto, a expressão dos nossos valores existenciais – esse pulmão se infla, nos oxigena, e faz da vida uma delícia de ser vivida. Há também os muitos momentos de estranhamento, quando as mudanças que vamos processando dentro de nós nos tornam quase que outros, quando deixamos de nos enxergar naquele espaço até então familiar, por não sabermos mais quem somos. Objetos deixam de fazer sentido, nosso sofá já não mais nos abraça carinhosamente e uma crise se instala. Momento de novamente entrarmos no processo de busca, na tentativa de reencontrar o equilíbrio perdido. Ponto de inflexão entre a história vivida e aquela ainda por vir, muitas vezes almejada, outras tantas receosamente combatida. O abandono da zona de conforto nunca é tarefa fácil, mas há que se retomar a escalada para novos cumes, descobrir novos horizontes que deem significado ao nosso existir. O que carregar conosco nessa caminhada é sempre escolha difícil. Muitas vezes temos que reduzir a carga para darmos conta da subida íngreme, noutras podemos nos dar ao luxo do auxílio de uma carroça e, assim, trazer mais daquilo que, até então, nos constituía – e que nesse caso seguirá como parte nossa, constituinte.

Ao mesmo tempo, lares nascem e fenecem – e mais uma vez, renascem e fenecem. Nesse processo contínuo de caminhar, vamos ajustando constantemente a casa em que vivemos. Na experiência material, vamos nos acomodando do jeito que nos é possível: remodelamos nossos ambientes; reformamos a poltrona ou compramos uma nova; nos encontramos em terras longínquas e, querendo cristalizar esse momento de alegre reconhecimento, trazemos aquela gravura da viagem – ou a luminária, o vaso, o tapete. Coisas que nesse momento elegemos como elementos simbólicos e representativos do nosso universo pessoal. Até o dia em que o totem perde seu encanto, e as coisas voltam ao seu estado de coisa. O lar se esfria e os cenários da experiência humana voltam a ser meros tijolos e argamassa.

Todos nós já fomos testemunhas da formação e dissolução de lares a nossa volta. De alguns fazíamos parte, de outros assistimos à distância suas transformações. A morte aqui não é sinônimo de fim, mas sim de recomeço. Como a Phoenix, lares renascem. No mesmo lugar ou em outras paragens, mas sempre encontrando nova identidade, símbolo de algo novo que brotou em nossas vidas. Um casamento, um filho que chega, uma filha que vai para o mundo. Como um pequeno ser que deixa de caber em seu primeiro lar, encontros e despedidas vão moldando nossos espaços, e assim deixando marcas na vida das coisas.