Em nossas casas, o tempo se deposita em camadas de história. Na minha sala de alguns anos atrás, a geladeira Frigidaire herdada da minha avó, e a geladeira Samsung herdada da minha mãe. A mais antiga ainda em funcionamento, enquanto a mais recente teve morte cerebral – seu termostato não sabia mais quando ligar ou desligar. Mantive as duas na minha sala como denúncia da obsolescência programada, da qual somos vítimas e algozes. Foto: Cacá Bratke

Meu avô adorava repetir a máxima de que ninguém fica para semente. E olha que ele viveu até quase os 102, por pouco desafiando a verdade que ele mesmo gostava de apregoar. Embora todos saibamos que nada dura para sempre, viver com consciência da passagem do tempo não é bolinho. A começar pelas limitações que vão aparecendo, uma fisgada na coluna aqui, uma lesão no quadril ali. Envelhecer sem ficar aprisionado numa ladainha de reclamações é desafiante. Encarar as rugas, os cabelos brancos – quando ainda nos restam – e as marcas do tempo em nossos corpos nos faz lembrar diariamente que estamos por aqui de passagem mesmo. Do pó ao pó, isso é fato.

Mas dizemos que o tempo faz bem a alguns. Não é raro encontrar algum amigo das antigas a quem os anos tenham sido generosos: os cabelos grisalhos lhe caíram bem e as marcas do belo sorriso vincadas em sua face denotam uma vida feliz. Assim como algumas bebidas que, envelhecidas, melhoram o seu aroma, alguns de nós conseguem encontrar equilíbrio no amadurecimento. Da mesma forma, nossas casas atravessam os anos e atingem a maturidade. Tudo está ali, para o bem e para o mal, acumulado em camadas.

Memórias afetivas, nossas ou de nossa família e companheiros de vida, vão sendo depositadas nesse espaço de acolhimento, um grande útero que vai parindo fases em nossas vidas. Mas em tempos líquidos que vivemos, as vezes é difícil fortalecer essas marcas e a sua importância, uma vez que há uma ojeriza aos sinais da passagem dos anos. Cronos, senhor do tempo, nunca foi tão temido e nunca se fugiu tanto de seus caprichos. O que dizer do desejo irrefreável de que nada pareça estar envelhecendo, mesmo que seja nos objetos que nos cercam? Os sofás têm que estar sempre impecáveis, o piso não deve riscar, a bancada da cozinha não ter sua superfície manchada jamais, a vida sendo inoculada por um véu de alvura inocente e pueril.

Posso contar inúmeras histórias sobre o enlouquecimento humano ao se deparar com a fragilidade das coisas e a impermanência dos estados tidos como ideais. Não vou denunciar ninguém menos do que eu mesmo. Quando me mudei para o meu apartamento recém reformado, anos atrás, os primeiros riscos nas bancadas de aço inox foram recebidos com uma dor lancinante, quase física. Como se aquelas marcas revelassem muito mais do que são, como se fossem um ‘risco’ à minha integridade e à minha existência – e de certa forma eram mesmo. Aquele jeito de entender a vida sem contabilizar a passagem do tempo e as inevitáveis sequelas de se estar no mundo físico, limitado e temporal, estava com seus dias contados.

E ainda, as coisas dos nossos tempos, já há tempos, não são feitas para perdurar. A geladeira Frigidaire da minha avó, que até hoje funciona e cumpre seu papel, é considerada uma aberração da indústria ingênua e inexperiente, que não sabia que o bom mesmo – segundo os departamentos de marketing, até então inexistentes – seria trocar de modelo todo ano. Para eles, o mundo precisa esquecer que as coisas perecem, simplesmente comprando novas coisas que poderão ficar algum tempo sem nos esfregar na cara as marcas indecentes, aquelas que nos lembram que nós mesmos temos um tempo limitado com nossos pés plantados nesse planeta.

O tempo passa, fato inexorável. Para mim, para você, para minha casa e para a sua. E lar bom mesmo é aquele que aceita isso com beleza e honestidade, nos ajudando a acolher isso com coragem em nós mesmos, em nossa pele assim como nas superfícies todas do mundo que nos cerca.