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Há muito que sabemos do coqueluche no mundo contemporâneo com tudo que seja exclusivo. Querer jantar num restaurante incrível com poucas mesas, ou passar as férias numa praia intocada em algum lugar incrivelmente desconhecido, praticamente um pedaço do paraíso, são algumas das formas com as quais muitos de nós cultivamos o desejo de que nossas existências sejam exemplo do quão únicos e importantes somos. Casas são tratadas com isonomia nessa lógica, e são incontáveis os que almejam ter uma casa grande, controlada por mecanismos tecnológicos de ponta – acessíveis a poucos -, querem possuir obras de arte únicas, com tiragens pequenas, ou ainda ambicionam peças de design caras e que não estão disponíveis a um público amplo. Se muitos têm acesso a um determinado bem, ele perde imediatamente o seu valor. Engraçado perceber aqui várias confusões na interpretação do que seja esse caráter único de cada um de nós e como ele se implanta nessas formas-expressão do desejo de reconhecimento.

É fundamental que destrinchemos essas sutis formas de controle que nos tiram a autonomia no dia a dia. Ter a casa grande pode ser lido como sinônimo de sucesso no sistema capitalista. Como se o grande estivesse automaticamente associado ao melhor, ao mais poderoso, ao mais caro. Eu, que sou considerado pequeno para os padrões atuais, posso um dia contar para vocês um bom bocado sobre essa supremacia do maior. Só quem vive na pele algum tipo de discriminação pode dizer dos seus efeitos na vida cotidiana. Não ter alguns poucos centímetros a mais já me custou bastante caro e, logo, me gerou sofrimento. Se algo me expõe à dor, lê-se que me enfraquece. Eu poderia perfeitamente ter sucumbido às pressões que fui exposto e hoje me achar uma ‘pequena vítima’. Mas aqui reside uma outra confusão: a de que a nossa vulnerabilidade nos faça mais fracos – quando muitos de nós já descobrimos que é justamente o inverso. Aceitar minha fragilidade diante da crença de que tudo que é maior, é melhor, foi justamente o que me fortaleceu. Hoje nem penso no meu tamanho.

O grande para mim, aqui, simboliza tudo que nossa sociedade considera que tem maior poder de conquista. E que, portanto, possa impressionar muitos e mantê-los acreditando na corrida maluca atrás da cenoura perdida. Há um componente opressivo na valorização que criamos sobre as celebridades, os desejos de consumo, os fetiches e o acesso ilimitado. Ser VIP nunca foi tão importante, literalmente.

Tudo isso é só mais uma representação de que, nos nossos tempos, possuir algo é mais valorizado do que o usufruto dos confortos possibilitados por esse algo. Estar conectado pela mais avançada das mais avançadas das tecnologias hoje não representa uma sabedoria mais elevada, como a canção dizia, mas garante melhor acesso aos canais de comunicação com o resto do mundo. Isso acaba reforçando as disparidades ocasionadas pelo poder atribuído ao grande. E mais uma vez o sistema reforça o que já tem força. O exclusivo segue gerando exclusão. Quando nossa unicidade deixa de se calcar na nossa singularidade e passa a ser mensurada pela nossa capacidade de acesso ao sistema, há algo de errado em nossos parâmetros.

Nosso lar é nosso refúgio, onde acolhemos a nós mesmos, mas também àqueles que amamos. E diante disso, uma pergunta não me deixa em paz: por que desejar a exclusividade num âmbito da vida onde tudo o que queremos é a inclusão? A falta de outras pessoas para compartilhar as coisas boas da vida esvazia qualquer valor real e efetivo que uma coisa possa ter. O valor das coisas tem sido associado às relações de oferta e demanda, mas por que a demanda por coisas que criam a exclusão é tão elevada, enquanto escutamos tantos ao nosso redor, solitários, dizendo que querem encontrar alguém para viverem felizes para sempre? Se a grande maioria das pessoas entendesse que é justamente o desejo delas por certas coisas que faz dessas coisas tão valorizadas, caras e exclusivas, e se entendessem que temos a grande oportunidade de determinar aquilo que para nós deve ter valor de verdade, talvez nos libertássemos desse aprisionamento auto imposto.

Não há nada mais exclusivo do que a nossa impressão digital, a nossa personalidade. Ninguém jamais será igual a você, não importa o quanto possa desejar. A busca por ser autêntico e expressar essa autenticidade em nossas vidas é a única forma de valorizarmos nossa singularidade. Entender isso profundamente permite que sejamos exclusivamente nós mesmos, sendo inclusivos com todo o resto e os demais em nossas vidas.