Odeio me expor. Mas, às vezes, é inevitável.

Por causa dessa minha limitação, costumo me preparar com minúcia para momentos em que preciso falar em público, apresentar uma ideia criativa para clientes, dar uma entrevista, lançar um livro. E, acima de tudo, quando me convidam pra uma canja num show de música.

A tensão já começa na noite anterior. Não consigo dormir direito. Antes de deitar já coloco um vidro de floral rescue no criado-mudo.

Depois sonho que não tenho nada a dizer na entrevista, que vão odiar a ideia da minha campanha publicitária, que só vai a minha mãe na noite de autógrafos ou que – o horror – esqueço a letra da música durante a performance.

Não demorei a criar alguns rituais.

Tenho que chegar antes aos lugares onde vou me exibir pra conhecer o terreno. Se for cantar, não posso despencar em cima de um palco e sair soltando a voz. Preciso andar pelo tablado, ver como é o piso, saber se o camarim tem cheiro de mofo – porque sou alérgico e, se houver ácaros, já começo a espirrar.

Apesar de ser agnóstico toda vez rezo uma oração que minha avó me ensinou antes de entrar em cena: “chagas abertas, corações feridos, sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, entre nós e os perigos”.

Faço a prece ajoelhado no banheiro, depois mando um“pelo sinal” caprichado, o sinal da cruz e não falo com mais ninguém até me avisarem que está na hora de encarar a ribalta..

Quando vou dar entrevista sobre um livro que lancei preciso reler a obra inteira antes do encontro e marcar as partes que quero, e que não quero, ver enfatizadas na conversa. E os tópicos não podem ser feitos a caneta ou lápis, mas com post-it colados nas páginas.

Ao apresentar uma campanha publicitária a clientes preciso antes decorar todos os roteiros para não ter que contá-los segurando um papel ou olhando a tela do computador.

Faz um tempo, o grupo que criei com colegas de faculdade, o Língua de Trapo, se apresentou na final do Festival dos Festivais, na Globo. Foi com a música Os Metaleiros Também Amam, minha e de Ayrton Mugnaini Jr. A letra fazia bullying com os do heavy-metal e era um esculacho do início ao fim. Para completar éramos um grupo de São Paulo tocando no Maracanãzinho – imagine o tamanho do bairrismo.

Não preciso dizer que estava no auge da paranoia. Entrei no banheiro, fiz minhas abluções e preces e, ao sair da patente, ouvi aquela onda sonora sacudindo tudo: eram 11 mil cariocas vaiando a letra que eu escrevera sozinho no meu quarto.

Fui até a porta e vi alguns mais raivosos lançando os assentos das cadeiras para o alto.

Ali, no escuro do camarim, prometi nunca mais participar de um show na vida.

Terminada a nossa stravaganza musical voltei ao hotel e de lá a São Paulo.

Chegando ao trabalho havia um fax em cima de minha mesa. Alguém me enviara o poema Viva Vaia, do Augusto de Campos. Depois me informaram que podia ter sido o Cid Campos, também participante do Festival – com a música Vamp Neguinha – e filho do concretista.

Nunca soube se havia sido ele mesmo. Ou o pai dele, vai saber?

Mas não importa, receber aquele recado foi terapêutico.

Tão curativo que, como diz o samba do Chico , “voltei a cantar.”