(Foto: Stijn Swinnen / Unsplash)

Dizem que o parto é uma batalha. O meu foi bem tranquilo.
O problema era o berçário. Ali já começou uma clara luta entre bebês pela atenção das enfermeiras. Muita gente não percebe, contudo, mesmo entre os recém-nascidos existe uma zona de grande tensão, uma espécie de guerra fria neonatal. Arrotos, punzinhos, uma nenê jogando gotículas de água na cara de outra durante o banho de banheira…

A conflagração infelizmente não parou por aí. Quando entrei no jardim da infância veio a guerra do bullying. Eu era o único aluno nascido no Piauí numa escola encravada na zona oeste de São Paulo. Os coleguinhas implicavam com o meu linguajar incompreensível do Meio Norte. Trocávamos muitas caneladas e sacudões no recreio em função disso. Só que nada se comparado à renhida luta travada no ensino fundamental. Ali as missões foram sangrentas. O clássico “me espera na saída” era usado diariamente e eu, para não passar por desertor, não podia fugir da contenda.

A primeira vez que fui convocado para o combate o meu inimigo foi o Minoru. Diferente de seus descendentes, o nipônico tinha 1,80 metro de altura. Fui abatido já no primeiro ataque.
No dia seguinte trouxe o guarda-chuva da minha avó para a escola e chamei Minoru ao campo de enfrentamento. Surrei-o com a sombrinha rosa até que ele se rendesse, combalido. Nas linhas de batalha é assim, vale a arma que temos em mãos.

O meu período escolar inteiro foi um livro Guerra e Paz – só que sem a parte da paz. Lutávamos por notas, pelo melhor lugar na van, por popularidade com as garotas, por quem bebia mais, por tudo e por nada.
Depois de um longo e belicoso período com meu orientador, afinal venci-o, peguei o certificado de mestre e iniciei a disputa por um lugar no front profissional. Foi necessário matar diversos concorrentes para provar que era um vitorioso, um verdadeiro soldado do meu ofício.

Depois de muita concentração, treinamento e coragem cheguei lá: veio a promoção. Poucos dias após esse meu triunfo, conheci minha futura esposa. Tivemos um curto período de tranquilidade, mas logo deu-se a escaramuça. Não sei bem o que aconteceu, mas ela, que eu considerava uma forte aliada, passou a me tratar como um antagonista. Atacava-me mortalmente e fui obrigado a responder com carga total. Um tempo depois, para evitar danos de parte a parte, assinamos um acordo de armistício.

A partir daquela data decidi não me alistar mais nas trincheiras conjugais. Virei um lobo solitário. Hoje, na reserva da vida, moro num retiro para idosos. Sempre acreditei que, ao chegar nesse estágio, poderia analisar a existência com a merecida calma. Entretanto, aqui não é diferente. Um grupo de anciãos da Ala B vive em conflito com os macróbios da Ala F; o entrevero já dura anos.

Ontem fui designado pelos cabeças da Ala F para sequestrar os vidros de plasma do almoxarifado da Ala B. Estou partindo para uma missão perigosa. Se não voltar, tudo bem, estou de consciência leve. Afora algumas polarizações aqui e ali, minha vida sempre foi de paz.