(Foto: Nilotpal Kanita – Unsplash)

 

Nemésio!
Décadas sem notícias e agora te acho, cara. Santo Google! Ai, oitava maravilha esse bichinho: montes de páginas com teu nome, uma tinha o e-mail.
E então? Tudo belezinha?
Puxa, minha vida ficou uma maluquice depois da facul. Acabei casando com o Amadeu. O dentuço que sentava na terceira fileira.
Pra ser franca, sempre fiquei dividida entre você e ele. Mas sou sensitiva, sonhei com o Amadeu colocando uma aliança no meu dedo. O casório foi no ano seguinte à formatura.
A gente tava ainda em lua-de-mel quando houve o acidente.
Ele foi atravessar a Paulista, pisou num chiclete e ficou grudado. Veio o Jardim Miriam – Via Jabaquara – ai, tadinho do Amadeu.
Me deu uma intuição na hora. Eu devia sair fora de circuito por uns tempos. Fui morar num mosteiro na Ásia. Uma religião nova, muito interessante mesmo. Toda baseada em energia.
Pra ser uma Pilha do Universo você precisava ficar oito anos zelando o mosteiro: varrendo, limpando privada, essas coisas básicas. Eu fiquei meu período bonitinho, mas pra receber o certificado tinha que pagar 10 mil dólares pro lama.
Decidi, mais uma vez por impulso, me mudar de lá (queria ser Pilha, mas como não fui qualificada saltei fora).
Fiz escala em Londres e comecei a sair com um paquistanês muito fera. Quando ele me beijou pela primeira vez veio, no ato, a intuição: nosso lance ia ser forte. E como foi!
O Chafic era da Al Qaeda – sabe o grupo do 11 de setembro? Então, aquele.
Chafic me convidou pra participar de um atentado com a família dele. Treinamos direitinho tudo.
Eu entraria no restaurante – um que foi a antiga casa do Karl Marx no China Town – e me explodiria.
Doido, né?
Mas você sabe como eu fico quando me apaixono. Me recuso a ler “Mulheres que amam demais”, conhece o tipo? Fechei na hora o lance da intifada. Até de véu, eu andava.
Mas houve o estresse do ensaio. A burra aqui aperta o botãozinho quando o Chafic tá regulando o cinto de bombas.
Nemésio, você não calcula o que foi aquilo.  Queima de fogos em Copacabana é pinto. O Amadeu pelo menos virou um tapetinho. Já o Chafic, ah, o Chafic evaporou! Ele, a van, minha sogra, o Salim, o Abdulla, o Ali…Tudo, tudo, tudo. Até a casa de shawarma que tinha do lado do nosso esconderijo em Finnsbury Park.
Voltei arrasada pro Brasil. Chego, não reconheço o país, tudo meio estranho, sei lá.
Procurei o povo da facul, ninguém quis me receber. Só a Sueli – a namorada espinhenta do Wellington da última fileira,  sabe? Ela me levou num Fran’s Café. Mas a mulher ficou meio maluca depois do corte na Repartição onde trabalhava. Tá fazendo uns cursos pra bruxa, cura através de tambores.
Quando eu tava voltando pra casa o coração começou a pipocar: tum, tum, tum.  Era outra daquelas intuições me pegando na curva. Poxa, eu podia usar essa experiência de monja- terrorista pra ajudar o Brasil a deixar de ser cinza e voltar a ser verde-amarelo.
Então.
Tô superinclinada a me filiar num partido político. Parece que tem uns muito bons e honestos. A intuição tá berrando, cara. O que você acha? Assino a ficha em qual deles, Nemésio?