No momento em que começou a festinha de aniversário da minha filha nesse fim de semana, isso às 16 horas, eu já tinha carregado o equivalente a oito contêineres de utensílios domésticos, comidas, doces, adereços e flores para o salão de festa do prédio.

Isso fora uma escrivaninha de mogno que trouxe, nas costas, do décimo-sétimo andar para fazer as vezes de trocador de fraldas. Detalhe: pela escada de emergência.

E, claro, ainda teve a instalação da Peppa que interagia com as crianças arrotando que montei na noite anterior. E os 1700 litros de oxigênio que saíram dos meus pulmões para os balões da mesa principal.

Quando imaginei que terminara as tarefas chegou o pai do João Pedro, esbaforido.

– Cara, a babá deu o cano. A Mariana pegou um trampo e eu estou numa concorrência lá na agência. Você pode tomar conta do JP pra gente durante a festa?

Olhei para o meninozinho, que era mais velho do que os quase recém-nascidos que circulavam pelo ambiente, e assenti. O pai saiu apressado.

– Às nove, eu volto! – falou enquanto corria em direção ao carro.

Antes que eu fizesse qualquer movimento, JP já tinha se abraçado à minha perna e aplicava nela dolorosíssimas caneladas. Berrava:

– Quero hot dog, quero hot dog!

Fui até a tendinha de sanduíches e pedi que preparassem um no capricho pra ele. Entreguei-lhe e, ato contínuo, levei um “jab” no queixo.

– Eu não quero com mostarda! – urrou o menininho enfezado.

Fiz um outro, eu mesmo, só com catchup, salsicha e lhe dei. Dessa vez, ele comeu quase a metade. Aproveitei e fui dar atenção aos outros convidados. Quando voltei o peixinho beta da minha filha estava morto: afogamento por ingestão de salsicha.

JP estava ao lado dele, com cara angelical. Mas aquela expressão cândida de boneco Chucky.

Não tinha jeito, era ficar na cola dele mesmo. Minutos depois, JP me pede pra fazer cocô. Aliviou-se só depois de tentar durante uns 20 minutos. Por causa disso perdi o momento em que cantaram “parabéns a você” para a filha.

– Limpa minha bumbuca! – ele ordenou.

Pensei nos procedimentos de hoje em dia. Eu, sozinho com uma criança no banheiro… Não, melhor chamar uma das babás que estavam por lá para higienizá-lo. Quando abri a porta, ele se indignou:

– Eu quero que VOCÊ limpe a minha bumbuca!!

Ia contê-lo, mas JP saiu aos gritos pelo salão, com um rolo de papel higiênico preso na bermudinha esvoaçando feito uma serpentina. Soluçava.

Uma galera fez de tudo pra segurá-lo, mas foi em vão. Logo ele tropeçou, caiu e bateu a testa numa parede. Em meia hora, a festa foi parar num PS do entorno para que suturassem o supercílio do meninozinho.

Nove horas em ponto chegam o pai, a mãe e a avó de JP no prédio. Entram em pânico ao notarem que o queridinho está com pontos na testa. A mãe, emocionada, indaga:

– O que foi isso na sua cabecinha, meu amor?

– Ele não quis limpar minha bumbuca, eu corri e cai – ele diz com voz terna.

A avozinha interrompe o silêncio que se impusera e declara, olhando diretamente nos meus olhos:

– Seu tarado!