“O cara sentou aí atrás, onde o senhor está, e desandou a falar comigo que nem um papagaio.”

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(Pixabay)

O senhor sabe como é. E o cara sentou aí atrás onde o senhor está e desandou a falar comigo que nem um papagaio. Não calava a matraca. Não deixou nem eu oferecer as revistas, as balinhas, a água – que eu tenho sempre com ou sem gás. Porque, afinal de contas, se a gente se propõe a ser motorista-de-carro-de-aplicativo precisa ter um algo a mais. Teve até um prefeito que falou que o taxista precisava se apresentar de um jeito limpo, asseado. Pedia que a gente usasse paletó, camisa social, sapato engraxado. Pra mim é correto. A pessoa está aqui pra servir. Se o senhor, vamos dizer, entra no meu veículo e eu estou todo esfarrapado, molambento, o que vai pensar? Que eu sou um marginal, um pervertido, um drogado? Ia pensar ou não ia? Pois então. Está certo exigir uma roupa bem passada, uma viatura limpa, ainda mais para o freguês do celular.

O que não está certo é o preconceito com o motorista-de-carro-de-aplicativo. O senhor não calcula o que a gente vê por aí. Taxista fazendo todo tipo de desgrama com o colega dele. Dói. Eu mesmo fui deixar um passageiro em Congonhas e, quando eles me viram desembarcando o rapaz na calçada, vieram feito fera pra cima. Um senhorzinho, motorista de um Palio cinza, pegou uma chave de roda e correu pra macetar no meu capô. A sorte é que esse meu Golzinho Bola tem arranque bom, senão o velho tinha lascado a lataria. E quem ia ficar no prejuízo? Eu e a Laíse. Laíse é a minha esposa. Ela pagou 50% do carro. O outro Gol que a gente trabalhava não houve meio de acertar as multas, tive que encostar num terreno baldio em Mailasqui.

É luta dura, ai, ai, nem fale. Educar filho dirigindo dia e noite, ô sina… Mas, no fim, compensa. Ver a menina fazendo o curso de comerciária, o menino virando DJ. Compensa, compensa.

O que ferra é pagar aluguel. Deixando o senhor vou até meu bairro ver um sobradinho geminado com a mulher. Pegamos a calculadora e a prestação da Caixa fica parelha com o aluguel. Talvez uns 80, 100 reais a mais. A menina se diplomando no curso de Comércio, a gente se desaperta e entra numa dívida nova mais fácil. Morar em casa de cômodo, não é cômodo, não senhor. Tem o lado bom da amizade com o vizinho e tudo, quando falta um trem o povo empresta, só que o teretetê da falação é triste. É um arrasando o outro.

Se der certo quero morar na parte de cima do sobrado e, na garagem, que é grande, montar um emporiozinho. Boto a menina, que entende de conta, no caixa e a Laíse no balcão. O menino já ganha uns trocados animando festa, balada de firma. Juntando com as corridas, a gente se ajeita. Eu não desgosto de dirigir não. Ruim é quando o passageiro não deixa a gente conversar, só ele fala. O senhor sabe como é. E a balinha, não quis? É 7 Belo, docinha…