(Foto: Joshua Earle – Unsplash)

Novo zum-zum-zum nas redes sociais: alienígenas invadirão a Terra no final do ano.

Sempre que esse tipo de post me impacta penso a mesma coisa – que coisa mais chata seria a companhia de extraterrestres entre nós.

Pois é, sou do time dos que não se sente maravilhado com a presença de ninguém, além de animais e plantas, em torno de mim. Nunca curti documentários do Carl Sagan e passo longe de filmes como “Distrito 9.”

Pensando de forma pragmática, para que precisamos de “gente” nova no pedaço se já somos bilhões de vizinhos tendo que se aturar uns aos outros diariamente?  O Homo sapiens não consegue sequer resolver suas problemáticas de gênero, como conviveríamos com seres que devem ter uns sete ou oito tipos de órgãos sexuais diferentes?

Já dá para imaginar o incômodo dessa invasão intergalática. De cara, já programaram o evento para ocorrer durante as Festas. O cidadão lá – vamos chamá-lo de Evandro, morador de Pinheiros – com a família, ceando. Toca a campainha do apartamento, é um E.T.

“Leve-me a seu líder!” – diz o homenzinho esverdeado.

Evandro vai até o interfone e liga para o síndico:

“Seu Cassiano, tem um extraterrestre aqui querendo falar com o senhor. Isso… De outro planeta… Não, não é criança do condomínio não, isso foi no Halloween, é da invasão que falaram no Facebook. Se ele fala Português? Opa! E bem. Vou botar na linha, minutinho.”

Num Português castiço, o E.T. pede ao síndico um favor:

“Viemos de Alfa Centauro, estamos num Airbnb na Rebouças. Queríamos comemorar o Natal terráqueo e não temos canela em pau para salpicar nas rabanadas, vocês podem nos emprestar um pouco?”

Num outro ponto da cidade, em Vila Clementino, horas depois acontece uma confusão em frente a um prédio. Já é tarde da noite e os moradores batem boca com um alienígena piscante. Ele insiste em ficar acelerando seu disco-voador e ninguém consegue dormir.

“Não vai desligar a geringonça aí não, E.T. de Varginha?” – grita um dos homens.

O E.T. se explica:

“Não posso, o sistema de autoalimentação criogênica da turbina afogou. O socorro da seguradora já saiu de Plutão, mas está um tremendo congestionamento perto da Lua. E não sou de Varginha, sou de Aldebarã.”

A senhora grisalha do 37 se irrita:

“Aldebarã, Jaçanã, sei lá de onde você é, mas para de acelerar essa lata velha! São mais de três da manhã, meu filho…”

“O conceito de tempo de vocês, telúricos, é muito limitado, parecem perus dentro de caixas.” – defende-se o E.T.

Chega o camburão da PM. No porta-malas, dois marcianos bêbados cantam uma canção folclórica de seu planeta numa língua parecida com búlgaro. O policial algema o ser piscante, que tenta reagir, mas jogam gás-pimenta em suas guelras. Um morador do prédio, chateado com a barulheira, lança um morteiro em cima do disco voador. Inicia-se um tiroteio.

Por essas e por outras é que ainda prefiro nossa solidão cósmica…

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Em tempo: após esta crônica deixarei-os sozinhos por uns dias, mas volto a postar aqui no dia 28 de dezembro.  Boas Festas!