Photo by UX Gun on Unsplash

O pior de tudo, no Rio, é o pobre ter que andar com a nota fiscal do celular no bolso. Isso pra não ser molestado em batida policial. Sinceramente, aí já empatou com a África do Sul à época do P. W. Botha. É aviltante. E não é de hoje a humilhação aos desvalidos cariocas.

Peguei muita ponte aérea por razões diversas para lá: reuniões de trabalho, visitar parentes, lançamento de livro, sair em escola de samba. E, desde que voava-se em turboélice Electra, o meu maior medo não era viajar de avião (odeio), mas chegar à capital da Guanabara e circular pelas ruas.

Com a crise econômica, contudo, passei a ir de ônibus. Até o dia em que um grande amigo, chegando à Cidade Maravilhosa, via Linha Vermelha, levou um tiro de bala perdida – leia-se fuzil. Foi submetido a dezenas de cirurgias a fim de recuperar órgãos internos.

Desde então, todas as vezes em que visitei o Rio presenciei algum tipo de violência. Numa delas estava com o filho mais velho, ainda bebê, no carro. Descíamos a Serra das Araras. Ele resolveu chorar de fome no entorno de Duque de Caxias. Era uma e meia da manhã – mas um pai que se preza não deixa sua cria em prantos.

Desci do veículo, com duas mamadeiras vazias nas mãos, e entrei no boteco em busca de leite em pó. O local era mais sujo que as tendinhas do filme “Cidade de Deus”. Mais sórdido ainda, moralmente falando. Os tipos que vi naquele balcão, que Deus me livre e guarde…

Quando notaram aquele paulista, cara de tonto, entrando com os “tetês” desacreditaram. O dono do bar ainda me perguntou, para completar:

– Aê, vaix tomar a birita no bico, mermão?

A freguesia desatou a rir. Depois a gargalhar. Em seguida, a chorar de rir…e a dar tiros para cima.

Lembro de ter me lançado para fora do recinto, as mamadeiras voando em câmera lenta. Depois pular na Parati, acelerar até Copacabana, o filho urrando. “Antes com fome que a sete palmos do chão”, eu repetia catatonicamente para a mãe dele.

No fundo, quem mais perde com essa ferocidade é Niterói e o Tom Jobim. Niterói porque é a cidade-sorriso. Sorria por estar perto das belezas do Rio. Vai virar cidade-pranto. E o Tom Jobim? Bem, porque suas lindas canções terão que ser entoadas com letras mais próximas da realidade:

SAMBA DO CAMBURÃO

Minha alma cala
Vejo o Rio de Janeiro
Estou morrendo de paúra
Rio sem mar
Tropas sem fim
Rio, como foi ficar assim?
Tanque Urutu
Cano apontado para a Guanabara
Este samba é só porque
Rio, eu não quero morrer
A morena vai mudar
Em São Paulo vai morar
Rio da caserna e sem bar
Dentro de mais uns minutos
Estaremos no camburão
Este samba é só porque
Rio, eu não quero morrer
A morena vai mudar
Em São Paulo vai morar
Aperte o cinto, vamos pousar
Aeromoça, olha o canhão mirando
Vão nos acertar…