– De onde você é

– Do Piauí.

– Ah, é “piauense”?

Nove entre dez paulistanos pronunciam assim nossa naturalidade. Comendo o segundo “i” da palavra. Um grande número também acha que quem nasce em Teresina é teresinês. Ou que o Piauí fica no Norte do Brasil, o que o aproximaria mais de Amazonas e Acre que do Maranhão e Ceará. Nada contra o tacacá e a Fafá de Belém, mas tais vacilações irritam. Notadamente para quem as ouve há décadas.

As dúvidas, mitos e lendas não param aí. Muitas outras singularidades acontecem nesse campo.

Curiosamente, um baiano tem sido o grande divulgador do Piauí no Sul Maravilha. É Caetano Veloso. Com seu famoso verso “a cajuína cristalina em Teresina” ele fez mais pelo estado que muito programa de incentivo ao turismo. Depois que a canção ganhou a mídia, os paulistanos logo que veem um piauiense vão logo cantando a musiquinha, como se ela fosse o prefixo musical de quem nasceu às margens do Poti.

Por outro lado, curiosamente um piauiense tem feito mais ainda por Caetano Veloso: Torquato Neto, o pouco lembrado artífice do tropicalismo. Sem ele, o movimento que elevou os doces bárbaros aos portais da fama seria um caju sem castanha. Falta talvez ao piauiense um pouco da ausência de modéstia de alguns baianos.

Um conhecido publicitário soteropolitano radicado em São Paulo certa vez criou um anúncio para sua agência onde dizia: “quem bota o ovo é a pata, mas quem leva a fama é a galinha”. Querendo dizer que as penosas fazem melhor propaganda de seu produto porque gritam mais alto. Concordo com ele. Se na Bahia existisse uma praia da Pedra do Sal, ela já teria virado locação para um filme de Leonardo di Caprio. Se o Delta do Parnaíba ficasse em Porto Seguro, o BID já teria liberado verbas gigantescas para desenvolver o local. E se tivessem um Mário Faustino como homem de letras, ele já teria virado nome de bloco ileayê. Mas optamos por ser avessos à publicidade. O que é muito digno e condizente à nossa índole sertaneja.

Mas, justamente por causa disso, é que continuam nos chamando de “piauenses” no sul Maravilha.

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Meu nome é Carlos Antônio de Melo e Castelo Branco.

Mas o sobrenome completo seria Bandeira de Mello e Castelo Branco.

No cartório de Teresina tiraram o Bandeira e o “L”do Mello de última hora, não sei bem a razão até hoje, talvez pra não ficar excessivamente longo e afetado.

Todo mundo associa meu sobrenome ao daquele marechal. Mas também sou aparentado do Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, o Chatô.

Ontem, por acaso, assisti na tv por assinatura o filme inspirado na biografia dele, escrita pelo Fernando Morais. Tudo bem, são atores, mas achei o Chatô do filme nada a ver com o jeito dos Bandeira de Mello que conheço. 

Está certo, o doutor Assis era uma cabra da peste mesmo, mas fisicamente não tinha aquele perfil longilíneo. Na família somos quase todos homens de estatura mediana, não passando do um metro e setenta e cinco e atarracados. 

O Chatô do Guilherme Fontes está mais pra um modelo fotográfico. Pode ter sido uma licença poética ou fílmica, mas o Getulio sem a barriga também extrapolou os limites do bom senso.

O Getúlio magro é como uma Dilma sexy, um FHC fiel, algo completamente improvável.