Semana passada recebi convite para curtir uma página recém-criada no Facebook. Num primeiro momento julguei que ela representava uma corrente religiosa. Depois supus que tratava-se de uma vertente filosófica. Bem, como veem, eu não saberia ainda precisar exatamente o que a página vem a ser, mas o nome do suposto movimento é Deboísmo.

Segundo seus fundadores, o Deboísmo pretende transformar seus seguidores em pessoas “de boas”, ou seja, que respeitam a forma das outras pensarem para, assim, todos conviverem bem.

Entre seus mandamentos, o Deboísmo sugere que seus membros vivam a existência com um sentimento de alegria e deslumbramento, sempre tentem aprender algo de novo ou, em resumo, vibrem o máximo de tempo possível de boa por aí.

Algumas pessoas acabam achando que os deboístas pregam a inércia. Mas, para os deboístas, uma pessoa não é um pastel. O Deboísmo não prega que não se fale, apenas que se procure a melhor forma de falar. Caso alguém veja uma injustiça, por exemplo, não deve ir lá e gritar, xingar, pois acabará sendo injusto também. Apenas deve se manifestar de outra maneira.

Não pude deixar de imaginar como seriam algumas situações em que deboístas interfeririam sobre nossa realidade.

NO VISTO PARA O ESTRANGEIRO

– Está com a documentação completa para solicitação do visto?

– Acho que rola

– Está ou não está?

– Tô com RG, CPF e a carteirinha do clube.

– E os atestados de antecedentes, de estado civil, de situação financeira?

– Olha só, não tava sabendo.

– Então a senhorita retorna aqui com eles daqui a oito meses, quando houver um novo reagendamento.

– De boa.

NO DENTISTA

– A obturação teve uma pequena alteraçãozinha, então eu estou imobilizando a sua mandíbula pra poder iniciar uma intervenção cirúrgica nessa camada mais funda da gengiva, ok? Quando eu perfurar a região com a broca vai dar um incômodo grande, porque a anestesia só pega até certo ponto e não funciona no osso. A operação toda não deve passar de 45 minutos. Tudo bem?

– De-bghshh boa-bghshh.

NO RELACIONAMENTO

– Anaclício, não sinto mais a gente como um casal.

– Ser companheiros de vida não é legal?

– Seria, se houvesse sexo, Anaclício.

– Entendi.

– Não entendeu: eu estou tendo um caso com o encanador.

– De boa.

– Com o encanador e com o leiteiro, Anaclício!!

– Então, de boas.

NO ASSALTO

– Passa o dinheiro aí, trouxa.

– Cara, não quer tomar um café antes? Eu pago.

– Que café, palhaço, me passa a grana agora ou te dou um teco!

– É que eu gosto tanto dessa carteira, sabe? Minha mulher comprou na feirinha da Benedito Calixto, é toda customizada com carinhas do deus-elefante indiano. Conhece a história do deus Ganesh?

– Que Ganesh, maluco? Dá o dinheiro, quer morrer?

– Ganesh é o símbolo das soluções lógicas. O corpo é humano e a cabeça é de um elefante; seu transporte é um rato.

– Rato, tá me chamando de rato, seu filho de uma rameira?

– Não, cara, só tô dizendo que o Ganesh é o Destruidor de Obstáculos, é uma solução lógica pros problemas…

– Então toma essa solução calibre 38 no meio da tua boca, toma!

– De-bghshh boa-bghshh.