Confesso que tenho um estranho vício ligado à Literatura. Acabo me interessando mais pela mania dos meus autores favoritos do que pela obra deles.

Começou quando soube que o Guimarães Rosa só escrevia à lápis, deitado na cama, em cadernos de 100 folhas. No ato abandonei meu laptop, fui à Kalunga e comprei uma brochura de papel pautado e uma caixa de lápis número dois.

Acontece que, quando estou escrevendo algo, gosto de ler obras que nada tem nada a ver com o meu projeto em curso. Nessa época em que redigia deitado estava entretido com Crime e Castigo. E não é que descubro que Dostoéivski só conseguiu traduzir o pensamento de assassinos porque ficou preso com vários deles após conspirar contra o czar?

É claro que eu precisava ser preso o mais rápido possível.

Tentei falsificar minha declaração de renda colocando minha avó, falecida no ano 2000, como minha dependente. Afirmei ainda ao Leão que gastara 35 mil reais só de plano de saúde com a nonna no ano anterior.

Enquanto aguardava a ordem de prisão optei por uma leitura mais leve: o humorista P. J. Rourke. Por acaso soube que ele prefere batucar numa máquina de escrever IBM Selectric portátil. O velho humorista libertário acredita que o computador o distrai durante o processo criativo Quem sou eu para discordar de P. J. Rourke?

Como não consegui ser preso e ainda recebi 35 mil reais de restituição do Imposto de Renda, decidi comprar uma IBM igualzinha a dele. Quem sabe usar o mesmo equipamento não melhoraria meu foco elevando, por tabela, o nível das minhas piadas?

No mesmo dia aposentei a cama, os cadernos de 100 folhas e os lápis número dois do Rosa e me entreguei, de corpo e alma, ao teclado mecânico.

No aplicativo do Mercado Livre não havia nenhuma IBM Selectric marrom. Pois é, tinha que ser a marrom porque a do P.J. não era nem a vermelha, nem a azul.

No site do e-Bay havia uma, meio torta e com a pintura descascada, mas as melhores estavam todas em lojas de produtos usados nos Estados Unidos. O ideal seria eu ir logo até Ohio, terra de Rourke, para resgatar uma IBM com cor local.

No dia seguinte me dirigi à fila do visto no consulado ianque. Levei meu kindle para ler alguma coisinha durante a espera. Quando passava os olhos numa biografia de James Joyce veio a epifania.

O irlandês só escrevia seus livros comendo chocolates. Estava explicado como alguém conseguiu inventar uma palavra onomatopaica de 98 letras e continuar sendo levado a sério pelo Ezra Pound: era o cacau.

Precisava logo iniciar uma pesquisa na internet para descobrir que tipos de chocolate o pai de Ulysses preferia. Seriam os suíços, os belgas, os meio amargos, os confeitados? Sai à francesa do consulado americano e voltei à minha casa e ao meu laptop. Sim, ao meu velho e bom laptop.

Se adotaria os bombons como a minha nova mania literária para que correr atrás de uma IBM marrom portátil? Ou de um caderno pautado e de lápis?

Não preciso dizer que passei um bom tempo me entupindo de chokitos e sonhos de valsa. Na minha idade, o colesterol acabou apresentando uma importante elevação, o que me levou a essa breve internação no SUS.

Para me distrair aqui no hospital peguei a mania de ler poemas de Silvia Plath. Alguém sabe onde encontro um forno à gás usado, em boas condições?