“Bom, nê?”

(Foto: Matthew Wheeler) 

No comecinho do expediente de segunda-feira formavam-se filas no cafezinho.
Tudo para ouvir o Tadaharu.

Contrariando a tradição oriental da timidez e recato, aquele pequeno e rechonchudo nissei era um pornógrafo de fazer inveja a Aretino. O curioso é que, toda a lascívia presente em seus relatos era sempre dita numa voz modulada, baixa, quase meiga. Como se o João Gilberto, ao contrário de cantar, contasse fatos picantes.

Lembro-me do dia em que nos brindou com a história da pescaria.

Estávamos todos numa diminuta copa, em meio a bules e xícaras com o logotipo da firma. Tadaharu sentou-se, como sempre na pia, e começou a falar com sua voz melíflua.
Ele e a namorada tinham ido a uma represa, bem ao gosto dos nipônicos, tentar pegar umas tilápias com iscas vivas. Tadaharu comprara um tênis de lona para a companheira e pedira a ela que o acompanhasse o dia todo pelos barrancos úmidos do lago – sem meia.

Depois de muitas horas pescando, andando de margem a margem do rio, o casal voltou para a barraca ao anoitecer. Tadaharu então pediu que ela tirasse o Conga e enfiasse os pés, ainda tépidos e chulepentos, diretamente em sua boca. Ficou ali horas, chupando as extremidades da namorada, sentindo gostos e retrogostos, farejando aromas umidamente mornos. Depois dormiu como criança.

Diante da estupefação dos colegas de trabalho, espremidos naquele cômodo, Tadaharu sempre fechava suas narrações com uma frase:

– Bom, nê?

Numa dessas segundas-feiras, o Japa conseguiu ferrar todo o Departamento.
Ele narrava a história do peixe. Todos, sem exceção, ouviam atentamente o que ele promovera com uma manjubinha durante uma relação sexual. Os detalhes eram cirúrgicos.

Infelizmente ninguém notou que o diretor de Recursos Humanos, justamente naquele momento, estava fechando o relatório de desempenho do Setor. Ao entrar às 10 da matina na sala e não encontrar nenhuma alma sentada à mesa, decidiu cortar o Departamento pela raiz. O passaralho levou metade da cambada para o olho da rua

Há poucos dias, encontrei Tadaharu numa padaria em Pinheiros. Ele comia um pão na canoa contando para o chapeiro e outros fregueses uma de suas criações cabulosas. Nem é preciso dizer que o ambiente lembrava uma das cenas do filme Matrix, quando se congela a ação, o tempo parecendo ficar suspenso num prego.

Olhei para ele de longe. Dois pensamentos se cristalizaram em meu córtex. “Por causa desse anão asiático meu emprego foi para as picas”. E, ao mesmo tempo: “como é que alguém pode entreter tanta gente, falando tanta merda?”.

Mal acabei de formar um juízo, Tadaharu me viu e veio correndo me abraçar, os olhinhos fechados.
A raiva passou. Pedimos um café carioca e entabulamos um papo. Para minha surpresa, a primeira coisa que ele disse foi:

– Sabe aquele menina que eu levei pra pescaria? A do Conga…

Esperei logo a vinda de mais um de seus petardos. Mas desta feita ele me desapontaria. Tirando um papelzinho do bolso da camisa com o timbre do laboratório Delboni, Tadaharu emendou:

– Vou ser papai!

E antes que eu dissesse qualquer coisa, ele completou, como de costume:

– Bom, nê?