Já eram 40 dias sem água na cidade. O “volume morto” começava a emitir fogo fátuo.

A elite branca encontrava-se um pouco melhor. Comprara todas as garrafas de Perrier, San Pellegrino e Evian e fizera um providencial estoque para beber e tomar banho. Mas, mesmo esse restante de H20, estava bem abaixo da crítica.

O problema é que uma notícia ruim nunca vem desacompanhada. A surpresa mesmo deu-se em inícios de dezembro, quando a catinga e a desidratação generalizada chegaram a níveis impensáveis.

Numa tarde estorricante, o objeto voador não-identificado, de proporções mastodônticas, pousou suavemente sobre o barro craquelado do que um dia fora o reservatório da Cantareira.

Uma escada luminescente abriu-se. Dois anões  extraterrestes saíram do artefato trazendo nas mãozinhas raquíticas instrumentos que lembravam antigos arcabuzes.

Viram um homem se arrastando com dificuldade à beira da represa. Apontaram a arma intergalática na direção dele e, em uma fração de segundos, o miserável sedento foi sugado para dentro do fuzil escalafobético.

Quando o homem despertou estava banhado, alimentado e hidratado dentro da nave – na praça da República.  Os dois ET’s nanicos que o abduziram estavam à sua frente num telão enorme.

Um deles tomou a palavra e disse, em tradução simultânea:

“Somos do planeta Bokonon. Representamos um povo que vive a bilhões de anos-luz daqui. E que, para se manter, precisa de uma terra exatamente como a sua: completamente desidratada”.

O outro anão, de voz esganiçada, continuou a fala:

“Há um ano inexplicavelmente começou a chover em Bokonon. O pouco de água que se precipitou matou milhões de bokononistas.  Nossos aparelhos de prospecção mostraram que havia um lugar no universo tão seco como nosso planeta: São Paulo. Fale-nos sobre sua terra…”

Não havia alternativa a não ser dar a letra. O homem deu:

“Um dia, do nada, parou de chover. Ficamos totalmente sem água na cidade. Falta de planejamento, mas também teve a ver com o meio ambiente. Os rios mais distantes de São Paulo influem na seca. É tudo interligado”.

Os ET’s exultaram. Um deles indagou:

“Isso significa que vocês vão ficar secos para sempre?”

“Acho que sim”, respondeu o homem melancolicamente.

Os anões se entreolharam.  O mais alto sentou-se diante dos controles da nave e ordenou ao outro:

“Vamos rumar agora para Bokonon e avisar ao povo que se prepare para habitar São Paulo. Ignição!”

O outro anão apertou um botão magenta no painel. Não houve ruído algum. Apertou novamente. Nada.

“O que houve?”, o anão-comandante quis saber.

“Os motores…não respondem…”

Os dois seres olharam pela janelinha e notaram que as turbinas do engenho haviam sumido.

Miraram o terráqueo, aturdidos. O homem então explicou:

“Desculpa aí, nem deu tempo de avisar…Quem estaciona aqui no centro corre esse risco. Devem ter desmontado as suas turbinas e levado pra vender no desmanche. São Paulo não é Bokonon, né?”

 

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