O clichê-mór é referir-se a qualquer coisa tecnológica como sendo do outro mundo. Nem todas são. Se pegarmos, por exemplo, essas lava-louças atuais, será que são a última bolacha do pacote? Eu tenho uma até bem modernosa e não acho. Um artefato em que, para lavar os seus pratos e talheres, é preciso lavá-los antes não é assim uma Brastemp.

Digo o mesmo dos smartphones. Eu sei, neles existem aplicativos muito úteis, não nego. Só que quase ninguém utiliza mais o celular como telefone. E as funções “selfie” e “tirar fotos de comida”, vamos combinar, apequenam a dignidade humana.

Poderia escrever aqui sobre um monte de aparelhos (ou devices, como querem os marqueteiros de plantão) inúteis, mas hoje quero focar no forno microondas. Mais especificamente na sua função de preparar ovos.

Antes, um pequeno histórico da minha tragédia.

Apesar de nascido no Piauí adquiri um hábito bastante britânico – talvez por influência dos livros do P. G. Wodehouse. Meu desjejum não é completo se eu não comer um ovo com meu café com leite. Pode ser pochê, estralado na manteiga, cozido na água ou qualquer outro tipo. Só faço questão de uma coisa: gema mole.

Desafortunadamente, a vida me impele a sair cedo de casa. E costumo ter, em média, parcos 10 minutos para preparar e consumir o meu pequeno almoço matinal.

Em função disso, não disponho de tempo para elaborar meu ovo de gema mole. Daí não há outra alternativa a não ser criá-lo em meu progressista microondas.

Nas primeiras vezes que usei o modo elétrico de cozimento ovíparo tentei diversos pontos. Após muita tentativa-erro vi que a minutagem ideal seria em torno de um minuto em potência máxima.

Acontece que a gema nunca ficava no ponto ideal. Se deixava por 60 segundos vinha dura; se permanecesse 10% disso, a clara aparecia crua.

Fui promovendo mais e mais experimentos, deixando entre 59 e 55 segundos. E, numa alvorada dessas, consegui obter o ovo perfeito, na marca dos 54 segundos. Anotei o tempo na minha agenda Hahnemühle como se fosse a fórmula da Pedra Filosofal.

No desjejum do dia seguinte chamei a todos para mostrar como a metodologia científica é sempre vitoriosa frente ao mundo selvagem e ignaro dos galináceos.

Dispus o ovo numa cumbuca, cobri-o com o recipiente protetor e marquei com altivez um 54 no timer.

Mulher e filha quedaram-se no balcão da copa com a mesma expectativa de quem assiste a queda de um meteoro numa planície russa congelada.

Passado o tempo exato retirei com empáfia calculada o prato e lá estava uma gema mole… e uma clara totalmente descozida.

Foi uma enorme decepção familiar, beirou um filme do Lars Von Trier do período Dogma.

Pensei com os meus botões: não se faz Bénédictine sem quebrar os ovos.

Chamei um técnico para calibrar o micro. O homenzinho de macacão passou boa parte da tarde mexendo nos eletrodos e garantiu-me que tudo estava em perfeita ordem e progresso.

E, no final, me explicou o óbvio: aquecer um ovo em temperatura ambiente ou um ovo saîdo da geladeira dá resultados bem diversos.

Aquela informação me desapontou bastante, tinha sido desatento em meus procedimentos culinários.

No desjejum seguinte, ainda abalado, coloquei dois ovos para cozinhar no micro e me esqueci deles e da tampa protetora. Houve uma ruidosa explosão e os estilhaços dos malditos provocaram um curto-circuito no aparelho.

Que me perdoem os mais tecnológicos, mas agora só faço ovo em frigideira.