Parece oportunismo publicar uma crônica sobre o Nepal numa das semanas mais terríveis da sua história. Mas, em meu caso, não é. Diferente de oportunismo é uma oportunidade de discorrer sobre um país que visitei por duas vezes. E, considerando-se que ele fica a 21 horas de voo – direto – do Brasil, acho que estou autorizado a postar este pequeno relato.

Visitei-o pela primeira vez há 20 anos.  E confesso, de cara, que o que mais me impressionou naquele povo foi o seu amor pelo futebol.  Crianças jogam improvisadamente com bolas de meia pelas ruas cinzentas e há até uma Copa do Nepal de Futebol onde o destaque é o Manang Marshyangdi Club.

O fato se mostrou ainda mais verdadeiro no hotel em que me hospedei em Katmandu.

Assinei a ficha com meu sobrenome completo, Castelo Branco, e fui tomar café da manhã.

Quando mordiscava o croissant veio um garçom e me entregou um pedaço de papel para assinar. Em seguida outro garçom, mais outro, o gerente do hotel… Todos com papeizinhos na mão para que eu dispusesse meu visto.

Ao lhes indagar se era costume emitirem uma comanda para cada ítem da mesa, o gerente dirigiu-se a mim com grande regojizo:

– É uma enorme honra ter como hóspede um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos: Branco!

A seleção brasileira tinha sido campeã do mundo no ano anterior. E o gerente, os garçons, cozinheiros, jardineiros, mensageiros, faxineiros, todos estavam crentes que eu, por ter o sobrenome Branco, era o lateral esquerdo do escrete de Parreira.

Tentei de todas as formas dissuadi-los, mas não havia meio de fazer a turba acreditar em outra coisa a não ser que uma estrela do futebol  mundial escolhera aquele lugar de três estrelas para se hospedar.

Como apregoa o dito, quando não há remédio, remediado está. Assumi que era o Branco, fazer o quê?

Posei em fotos com cada um dos funcionários, contei-lhes como foram os bastidores da Copa dos Estados Unidos e até joguei uma partidinha com os mais apaixonados pelo esporte bretão no gramado ao lado da piscina.

Algum tempo depois voltei ao Nepal. Dessa vez para escrever uma matéria para uma revista sobre um hotel de selva, na região do Terai, onde Hillary Clinton gostava de ficar.

Antes de ir para a exótica mata, passei duas noites na mesma estalagem em Katmandu. Minutos depois de sentar-me no lobby-bar, para me refrescar com uma Tuborg, ouço um mensageiro gritar:

– Pessoal, o Branco voltouuuuu!!!

A turba correu para me assediar com a mesma volúpia da primeira estadia. Olhei para o balcão do check-in e a foto que tirara com o staff estava lá em destaque: eu, o camisa 6 do Brasil, no meio de seus mais fervorosos torcedores.

Esta crônica (de oportunidade) é dedicada a todos esses meus “fãs” nepaleses e ao restante da população do país. Desejo que cada um deles consiga driblar as vicissitudes do momento e retorne, muito em breve, à vida normal.  E fico feliz em saber, que um dia, por alguns momentos, os alegrei com meu futebol – mesmo tendo sido um pouquinho mentiroso.

Namastê, Nepal!