Jorge andava passando nervoso.

Acordava, comia torradas com café preto, ligava para os lugares

querendo mostrar o portfólio e ouvia negativas.

Ultimamente ouvia-as e xingava, antes de bater o telefone.

Depois, encaixava uma bebida forte pra rebater.

E saia batendo pernas, tresandando, sem destino certo.

Vivia naquele apartamento alugado há seis meses.

Uma agência grande o botara no olho da rua e, para pagar as contas,

tivera de vender o quatro dormitórios onde residia na Vila Nova Conceição.

Mas o tropeço vem sempre acompanhado de um tombo.

O comprador não pagou o imóvel, a ação corre na Justiça, e Jorge anda engolindo sapo.

Esperou dar meio-dia, botou a “roupa de mostrar pasta” e foi almoçar.

A situação estava muito longe de permitir que ele comesse no seu trio de favoritos:

DOM, Pobre Juan, Attimo.

Os bares onde ia estavam mais para botecos de esquina do que para os outrora frequentados.

Mesmo assim, com seu paletó Ricardo Almeida modelo 2001,

Jorge ainda fazia bonito no Quilo de Dona Filó –

que ele chamava carinhosamente, fazendo biquinho, de “mon petit quilô.”

Ao adentrar majestoso, Jorge pediu, como de costume:

– A minha cerveja, dona Filó.

Prontamente atendido, pegou uma porção de salada, arroz, feijão e ovo.

Depois sentou-se à mesa, ao lado de um casal de escriturários.

Tomou um gole da bebida e foi ajustando a vista à penumbra

do velho restaurante caseiro.

Depois de alguns instantes, deparou-se com uma imagem que o surpreendeu.

Do outro lado da sala havia um outro homem de terno, como ele.

Era a primeira vez que via naquela birosca, fora ele mesmo,

um cidadão naqueles trajes.

Foi afinando a visão.

Depois de muito depurá-la, chegou à uma conclusão: era o Nunes.

Parecia irreal.

O Nunes era um dos maiores contatos publicitários do país.

Em sua sala havia um diploma enorme que ele havia recebido do “staff” da

Norwegian Foods onde a diretoria o classificava,

entre outras coisas, como “pessoa-chave”.

O Nunes estava comendo no Quilo de Dona Filó!

“Devem ter colocado rebite nessa cerveja”, pensou Jorge.

Logo em seguida, o contato o cumprimentou de longe.

Foi até a mesa e procurou ser simpático.

– Nunes? Pombas, quanto tempo? Só assim a gente consegue almoçar juntos?

– E aí, Jorjão? Como andam as coisas? – respondeu o outro,

engolindo uma garfada de arroz e feijão.

– Tão indo, tão indo…

– Mercado tá difícil, né?

– Uh, nem fala, Nunes. Complicadaço.

– Você tá em agência?

– Não. Tô independente.

– O que você quer dizer com independente? – quis entender Nunes.

Jorge coçou a cabeça, tentou explicar:

– Cansei do esquema CLT. Montei meu espaço próprio.

– Que nem eu – replicou Nunes, comendo um naco de jiló frito.

– Ah, também está fazendo parcerias?

– Sim, sim, é o melhor negócio no momento.

Houve um breve silêncio na mesa.

– Vamos conversar então. Anota meu número aí. Tô sem cartão.

– Saco! Eu também. Roubaram meu celular,

vou te dar um número fixo, da casa da minha ex-mulher.

Trocaram contatos.

Ao sair, Nunes perguntou:

– Vem sempre aqui?

Jorge respondeu, sem titubear:

– Não. Vim fazer pesquisazinha de mercado, ver como classe C, D come.

– Coincidência: vou dar uma palestra na Associação sobre restaurantes populares

e quis ver como era um quilo.

– Horror, né?

– Rapaz, que comidinha de merda.

– Liga pra mim, hein, não esquece!

– Claro, vamos trocar figurinhas, meu velho.

– Fasano?

– Se não tiver melhor, vamos lá mesmo…