São dias terríveis esses de março. A tensão sobe a ponto de promover coisas impensáveis. E parece não ser apenas no terreno da política. Anteontem voltava eu a pé, após o almoço, para o trabalho e vi a tensão elétrica subir a ponto de retesar os grossos fios de um poste defronte à minha janela.

Não demorou para o fogo começar a crepitar sobre o enorme nó de filamentos. Como sempre, pedestres e curiosos, em segundos, passaram a se apinhar diante da ocorrência. Esquecendo-se, é claro, que, em piorando a situação da rede elétrica, ia acabar sobrando choque pra toda a zaga ali presente. Nessas ocasiões parece que ninguém se recorda dos tristes eventos de gente virando pó por estar perto de postes ou transformadores que se explodiram.

Coloquei-me à uma distância segura da balbúrdia, desliguei o modo flâneur, liguei o voyeur, e me quedei observando o furdunço.

As empresas que operam na rua chamaram na hora os bombeiros. Mas, como os valorosos heróis não davam as caras, teve lugar a bateção de cabeça. Deram pra crer que seria melhor já tentar apagar as labaredas, afinal havia línguas de fogo por sobre eletricidade.

– Se derreter a borracha lá, babau! – berrava um segurança.

Um porteiro puxou logo uma mangueira.

– Água não, Clauderval! – implorou um taxista.

O espetáculo estava pronto. Não demorou muito para chegarem os vendedores de água mineral e amendoins na casca.

Uma velhinha, meio cegueta, tentou atravessar na faixa que ficava bem abaixo da hecatombe; foi imobilizada por um manobrista como se os dois fossem jogadores de rúgbi. Gritos, aplausos.

Baixou também um rapazinho, vindo da estação da CPTM, com uma mochila repleta de ursinhos de pelúcia para vender e nada dos bombeiros. Junto com o mascate aportou um food-truck de tapiocas.

Parte da turba postou-se à frente do caminhãozinho e ordenava lanches das mais diversas combinações. Um outro grupamento criou um fumoir improvisado. Nada como encher o bucho ou dar umas tragadas de tabaco para aprimorar a análise de um evento.

Como em tudo logo ocorreu a esperada polarização. Notei que alguns acreditavam que era preciso interromper o lume a toque de caixa – “e se acaba a luz no bairro todo, como fica?” Já um outro contigente defendia que se esperasse os soldados do fogo: “melhor aguardar quem entende da coisa, de mais a mais vai que nos liberam do trabalho hoje…”

De repente rugiu a sirene. Todas os cocurutos voltaram-se para o alto da rua. Lá vinha o carro da PM a mil por hora. Deu um meio cavalo de pau – quase atropelou de novo a macróbia velhota que devorava um saco de amendoins com cara de ave de rapina – e estacou, solene.

Cabo e o soldado apearam da viatura de revólveres engatilhados e foram logo apontando as armas de fogo – para o fogo.

Quando perceberam que não se tratava de um atentado à ordem pública, mas de uma combustão espontânea, compuseram-se fazendo, de um jeito meio apalermado, continência um para o outro.

Ah, quem dera fosse só a tensão política no Brasil…