Josué é um mosquito da dengue.

Vive no Rio dentro de uma câmara pneumática jogada na garagem de um sobradinho em Ramos.

Não tem do que se queixar o Josué. Ficou seis meses em estado larval. Caiu uma chuvinha, o governo não jogou veneno, e ele nasceu.

Depois de uns dias de resguardo, a mãe de Josué explicou a missão dos Aedes egyptis no mundo.

– Não sabemos de onde viemos, nem pra onde vamos. Mas pra onde os outros vão, nós temos certeza, filho…

– Pra onde, mámi?

– Pro Miguel Couto. Ou pro cemitério São João Batista.

Josué teve uma infância relativamente tranqüila, mas sua adolescência foi complicada. Entrou em conflito com os pais, que o obrigavam a sair picando os outros. Josué acreditava que aquilo era reacionário demais, queria ser uma muriçoca comum, não sair infectando os outros.

Mas a influência da família terminou fazendo com que ele assumisse o seu lado mais tradicional.

A primeira picada foi numa velhinha no piscinão de Ramos. Josué teve pena, a velha dormia de boca aberta. Mas tratava-se de uma oportunidade única: em boca fechada não entra mosquito.

Além do mais, a senhora tinha passado dos 80 anos, já tinha vivido uma bela história. Também se lembrou da cara do pai ameaçando-o de expulsão do goodyear da família.

Foi lá, picou e gostou. A coisa dava uma certa adrenalina, excitava.

Quando ele veio para bicá-la, quase foi atingido por aquela enorme palma da mão. Por pouco não acabava esmagado em cima de um pescoço pelancudo.

Josué começou a gostar da brincadeira.

Depois de alguns dias, já tinha passado dengue para centenas de pessoas. Se continuasse assim, em breve seria uma inseto ISO 9002. Com foto de “Aedes do Mês” no pneu e tudo.

A carreira de Josué poderia ter sido brilhante. Se ele não tivesse cruzado com Joselita – a pernilonga mais gostosuda de Ramos.

Como bom brasileiro, Josué era de estatura mediana, gostava muito de fulana, mas sicrana era quem lhe queria. Ou seja, Joselita esnobava Josué.

Bom, água mole em pedra dura tanto bate que a pedra confessa. Josué, indiferente à indiferença, iniciou a corte.

Primeiro, deu uns sobrevôos criativos na frente dela. Depois, pra mostrar sua coragem, teve a ousadia de picar um funcionário do Ministério da Saúde que jogava veneno em Duque de Caxias. Como nada surtia efeito, resolveu apelar: disse à musa que, se ela não se entregasse, ele cheiraria uma espiral de Baygon.

Joselita e Josué agora estão casados. Têm 18 717 filhos e quase 50 mil netos.

Josué não virou um mosquito-padrão, mas acabou se transformando num reprodutor respeitadíssimo no Rio e Baixada Fluminense.

Joselita dá a luz à uma mutuquinha por minuto. Basta ver um vaso com água que vai até lá e bota um monte de ovinhos.

A comunidade aedes fluminense não cansa de render homenagens ao fértil casal. Mesmo assim, Joselita e Josué estão pensando seriamente em deixar as crianças no Rio e se mudar para São Paulo.

– É mais cosmopolita – defende Joselita.

(Esta é uma das 88 crônicas que estão no meu livro “Clássicos de Mim Mesmo”, lançado em 2015. Sem querer dar uma de pernilongo e invadir seu espaço, mas é um ótimo presente de Natal, amigo secreto e quetais. Maiores informações: www.matrixeditora.com.br).