Depois dos 40, a situação não fica nada boa para quem precisa de emprego.

Alguns sinais de decadência física – cabelos brancos, barriga, rugas, artrite – começam a se apresentar e vai tornando-se quase impossível disfarçá-los e escapar da demissão.

Já presenciei situações de colegas em seus trabalhos que beiravam o surreal.

Uma delas foi com o Altamiro. Ele trabalhava numa editora há décadas. Só que a gestão começou a colocar cada vez mais profissionais juniores à volta dele. O mais idoso tinha a idade do seu filho caçula.

Detalhe: o amigo, ainda por cima, sofria de uma lombalgia terrível. Um fim de tarde, numa crise de coluna, foi levantar-se da poltrona e, sem querer, urrou:

– Ahhhhhh!!!!

Quando virou-se estavam todos os colegas e o chefe olhando para ele. Era preciso fazer alguma coisa muito lepidamente para não passar por um coroca alquebrado e ir para a rua. Foi então que Altamiro emendou um “Eu te amo” rápido, do Chico, com sua voz de barítono:

– Ahhhhhhh….se já perdemos a noção da hora. Se juntos já jogamos tudo fora. Me conta agora como hei de partir!

Foi ovacionado pela audiência corporativa. Até dona Rosemeire, gerente-geral do RH, verteu lágrimas. A esperteza garantiu-lhe uma pequena sobrevida na empresa.

Contudo, a história mais notável que vivenciei foi a do Clovão, que durante décadas foi respeitado diretor de arte em agências de propaganda. Até os 40 e poucos vivia viajando a Cannes para receber os leões de ouro que conquistava com seus primorosos anúncios e comerciais de TV.

Quando entrou nos 50 veio a decadência.

Não o queriam mais participando de nada.  Com a justificativa de que os maduros não entendiam de internet.  E, por isso, estavam fadados a não colaborar mais com suas ideias anacrônicas.

Clovão chegou a ouvir de um diretor o seguinte conselho:

–  Você já viu um vovozinho de 60 anos apresentando campanha? Abre uma lavanderia enquanto é tempo, Clóvis…

Mas Clovão não dava ouvidos. Com o passar do tempo acabou, de fato, quebrando. O dinheiro dos free-lancers não dava nem para pagar as contas mais básicas.

Numa noite de insônia, Clovão teve uma iluminação. Raspou a poupança, adquiriu um terno bem cortado, um par de sapatos oxford e pegou um voo para a França. Nada o prendia ao Brasil mesmo, não se casara ou tivera filhos.

Durante a viagem tomou a mesma champanhe que entornava nos tempos gloriosos. Fartou-se de foie-gras e arrematou tudo com o tradicional caffè corretto.

Chegando em Paris pegou uma conexão para Nice e, de lá, uma van para Cannes.

Em frente ao Palais des Festivals foi até um pequeno bar onde costumava brindar os grandes feitos com os colegas de propaganda. Entrou no WC e trocou o elegante costume por uma roupa de briga: bermuda jeans desfiada, camiseta com um furo acima do peito e chinelos de dedo. Pagou a água Badoit (naturelle gazeuse) com os últimos euros restantes e atravessou a feérica avenida Croisette. Sentou-se junto à amurada e passou a  exercer a atividade em que se mantém até hoje: pedinte.

Quando algum companheiro de agência o encontra maltrapilho pedindo moedas aos donos de iates que circulam por ali, Clovão repete, sempre muito sorridente:

– Mais vale ser miserável numa calçada da Croisette que peão numa agência da Berrini.