Para Fernandez, era impossível esquecer os “anos de chumbo”. Mesmo com o vidão de agora.
Sexagenário, o ex-guerrilheiro – codinome Silveirão – tinha se dado bem no funcionalismo, desde o abandono da luta armada em 1975.
De nomeação em nomeação, agora capitaneava a poderosa R.I.R: Repartição dos Inadimplentes Reincidentes – com 80 servidores concursados e 937 nomeados.
Mas, para preocupação da jovem esposa Cheyenne e dos filhos do primeiro matrimônio, Stalinir e Rosa de Luxemburgo, Fernandez sofria dos nervos. Do nada vinham pesadelos, visões e aquela eterna mania de falar usando jargão marxista.
Cheyenne, muito articulada na sociedade candanga, logo descobriu – junto a amigas da Confraria do Foie Gras – um excelente psiquiatra para o companheiro.
– E então, doutor? Quando poderei voltar à militância?
– Pare de sonhar com o passado, comece a olhar para o futuro – sugeriu o médico, após ouvi-lo em consulta.
E, além dos antidepressivos, receitou:
– Uma viagem! Esqueça que já foi Silveirão e aproveite o pé-de-meia – muito justo, aliás – que fez no serviço público. Compre as passagens quando sair do consultório!
Cheyenne preferia ter ido a Aspen. Mas, depois de alguma conversa, chegaram a um meio-termo: Havana, com escala em Miami.
Ainda estavam frescos em South Miami Beach, quando Cheyenne fez o convite.
– Que tal mudar o visual, Fernã? É tão antiquado esse casaco de general dos anos 60. Vamos às compras.
Pegaram o Jaguar conversível alugado na Hertz e rumaram a Coconut Groove, direto à loja Armani.
– Mas como, Cheyenne? 100 dólares por uma camisa toda rasgada? Isso dá pra prover uma família carente por quase um mês.
– Um alto funcionário do Estado brasileiro não pode andar como um hippie velho, Fernã. Leve tudo que separei e vamos ao cabeleireiro.
O salão ficava no elegante shopping Bal Harbor. O coiffeur perguntou qual seria o corte. Cheyenne tomou a frente:
– Corte moderno, desfiado. E raspe a barba, please.
Horas mais tarde, vestindo black jeans, bata cáqui e cabelo à Boy George, Fernandez levou sua musa para jantar na Ocean Drive.
Antes de saírem do hotel, ela borrifou um pouco de Allure, de Channel, no peito do velho guerrilheiro. No caminho conversaram sobre a vida, olhando o oceano.
– Não é que parei de ter aqueles sonhos com o delegado Fleury! Deve ser essa brisa…
– Maravilha, amor! – exultou Cheyenne.
Fernandez se empolgou.
– Sabe, uma ideia já virou consenso pra mim. Encampar um apartamento aqui. É pertinho de Cuba. Poderíamos ter uma qualidade de vida ótima e ir visitar Havana, de vez em quando.
O manobrista cubano abriu a porta do Jaguar em frente ao restaurante.
Cheyenne e uma nova esquerda,  totalmente remodelada e reestilizada, saíram andando de mãos dadas para um justo brinde com champanhe e charutos Cohiba.